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Artigos publicados sobre assuntos de seu interesse sempre atualizados.

Marcelo Câmara

Marcelo Nóbrega da Câmara Torres (Angra dos Reis, RJ, 1950) é formado em Direito e em Comunicação Social pela UFF, é jornalista, escritor, editor, consultor cultural, humorista, cachaçólogo, consultor de cachaças e o único degustador profissional de cachaças em atividade no mercado. Desde a juventude, atua como criador, consultor, crítico, administrador e realizador em diversas áreas da Cultura. É autor dos livros: Crítica à Cultura Brasileira (Coronário, 2ªed., 1986); Ipanema de A a Z, Dicionário da vida ipanemense, com Mário Peixoto (Cohen, 1999); Caminhos cruzados - a vida e a música de Newton Mendonça (Mauad, 2001); Cachaça Prazer Brasileiro (Mauad, 2ª ed., 2017); Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação / drinking and learning - Practical guide to tasting (impresso e e-book, Mauad, 2006-17, e como áudio book, Livro Sonoro, 2009); e Ficha de Degustação de Cachaças Marcelo Câmara (Mauad, 2017). Publicou centenas de trabalhos de Crítica e Política Cultural, Comunicação, Humor, Artes, Ciências Humanas e Sociais, em veículos do Rio, Niterói, São Paulo e Brasília. No Rio, fez Televisão e Teatro profissionalmente. Produziu textos para Cinema, Audiovisuais e Shows Musicais, estes apresentados por ele. Repórter Especial do Jornal do Brasil (RJ, 1975) e Repórter de O Globo em Brasília, assinou colunas em dezenas de veículos de Niterói, Rio, Brasília, Angra e Paraty. Criou e editou, com o seu amigo Darcy Ribeiro, de quem foi assessor e editor no Senado Federal, a Carta' do Senador Darcy Ribeiro, à época, a mais importante publicação cultural e política do País. Redigiu e editou o jornal Goles & Tragos, da extinta Confraria do Copo Furado (1994-7, RJ), criada e presidida por ele. Participou de dezenas de antologias. Fonte e personagem de diversas reportagens, filmes e vídeos sobre temas da Cultura Brasileira, é Consultor Legislativo do Senado Federal, aposentado, onde ingressou por concurso público e trabalhou como o único especialista em Cultura. Mantêm escritório de Consultoria Cultural na cidade do Rio de Janeiro. Possui o Título Honorário de Cidadão Paratiense. Website: www.ilhaverde.net | Blog: blogmcamara.blogspot.com.br

                                                                      
Aloysio de Castro, Benedito Coupê e Câmara Torres: três Homens Públicos que honraram Paraty e muito fizeram  pelo seu desenvolvimento. (Acervo Marcelo Câmara)

Na sede do PSP de Paraty e Comitê Eleitoral de Adhemar de Barros à Presidência da República, em setembro de 1954. Da esq. p/ dir.: Câmara Torres (de terno branco); atrás, Norival Rubem de Oliveira; Saint Claire Bustamante e Silva; Derly Ellena, Aloysio de Castro e José Plínio Rubem de Oliveira. (Acervo Marcelo Câmara)

     
O Deputado Câmara Torres e o Prefeito Aloysio de Castro de Castro realizam, em julho de 1970, a exitosa Operação Trindade, uma caravana com mais de trinta pessoas, visando integrá-la e levar desenvolvimento à  comunidade de 1 mil habitantes, até então isolada, sem serviços públicos básicos. (Acervo Marcelo Câmara)

Abel de Oliveira, por Marcelo Câmara ( Da série Os Paratyenses)

Durante mais de trinta anos, nas décadas de 1950, 1960 e 1970, estes diálogos eram comuns, cotidianos, em Paraty. O Bar e Restaurante Abel, que ficava na esquina da Rua Tenente Francisco Antônio com a Rua Comendador José Luiz (também chamadas de Rua do Comércio e Rua da Ferraria, respectivamente) foi o mais importante ponto de encontro social, cultural e político de Paraty. Uma nobre e frequente referência na vida da cidade. Mas qual era a atração do lugar? O que fez do popular Bar do Abel um lugar tão importante, célebre, que hoje faz parte da História de Paraty? Seria a sua localização estratégica, no centro do Bairro Histórico? A original e bela decoração da casa? A sua excelente caipirinha, a cerveja gelada, os imbatíveis bota-gostos, os seus pratos maravilhosos? A movimentada sinuca? O bom serviço dos balconistas e garçons? A clientela alegre, a boemia, os músicos, os seresteiros, os paratyenses, os visitantes e turistas, os artistas e personalidades que o freqüentavam? Resposta: tudo isto. Ou melhor, quase tudo isto. Porque a principal razão do sucesso e da fama do bar estava na figura de um homem baixo, de pouco riso e muito siso, sorriso quase enigmático, óculos de lentes redondas e escuras, que trajava sempre camisa de linho para fora das largas calças também de linho. Inteligente, perspicaz, ágil, gentil, discreto, de pouco falar e muito ouvir, Abel era generoso e austero, crítico, determinado, homem de posições, ao mesmo tempo doce e severo. Não transigia com o mal e a covardia. Repudiava a força, a injustiça, a impunidade. Atrás do balcão ou anonimamente sentado numa das mesas do bar, ele tudo via e sabia, tudo e todos sob seus olhos, tudo comandava sem gritos, sem fanfarronices, sem gestos largos. Empresário competente, honesto, íntegro, hábil negociador, chefe exigente e justo. Carismático. O seu nome: ABEL DE OLIVEIRA, fundador, proprietário e administrador do ontológico e eterno Bar do Abel. A casa tinha três ambientes. O bar, amplo, ventilado, iluminado pelas altas portas coloniais que se abriam para a rua, um balcão alto, onde se tomava uma excelente pinga; um salão repleto de autênticas mesas de botequim, de pés de ferro e tampos de mármore, lugar da bebida, do papo e dos bota-gostos. O salão de sinuca, onde pontificaram folclóricos jogadores que faziam a platéia rir: Seu Otacílio da Serra, que tinha amplas orelhas; Seu Lulu, Luiz Vieira Ramos, ex-prefeito, que fazia contorcionismos para dar certas tacadas; Seu Nhonhô, também ex-prefeito e compadre do Abel, com sua ironia e seu humor; Betinho e Sérgio, filhos do Nhonhô, falando e rindo em alto volume; Norival Rubem, que “matava de efeito, com um olho só”; Zezeca, que irritava os adversários com o deboche inocente e histórias ridículas; Pelinho, locutor e vereador, e sua língua presa; Decinho Ramiro, preocupado com a despesa da mesa e da cerveja, e tantos outros. Uma porta à direita do balcão do bar dava acesso ao restaurante, duas salas decoradas com o artesanato paratyense, fina rusticidade, de muito bom gosto: lambris artesanais de palha trançada emoldurada com madeira, luz diminuída pelas variadas cestas e tipitis, também de palha, que ornavam paredes e desciam do teto. Acima dos lambris, os belos e velozes cavalos, riscados a giz, do grande artista plástico Yoshiya Takaoka, amigo de Abel, e dezenas de quadros de artistas de prestígio internacional, que pintaram Paraty e amavam Abel: Omar Pellegatta, Frank Shaeffer, Aldo Bonadei, Anita Malfatti, Djanira, Orózio Belém, Armando Vianna, Moussia Pinto Alves, entre tantos outros. Abel exibia também os artistas da terra, como o Marques, o João José, o Vallasco, este garçom do seu bar. No fundo do restaurante, um viveiro de pássaros canoros duelava suavemente com música ambiente em baixíssimo volume. A comida do Bar do Abel sempre foi a melhor de Paraty. Somente o mestre Dito Coupê, quando era requisitado para preparar grandes banquetes, disputava com a culinária do Abel em excelência. Benedita Vieira de Oliveira, Dona Filhinha, mulher e companheira de Abel, grande quituteira, gerenciava, com muita responsabilidade e zelo, a cozinha, por onde passou muita gente boa. Lembro-me da Biúta, que, por muito tempo, comandou o fogão do Abel. Não havia prato razoável no Abel. Tudo era superior, feito com arte e esmero, do cafezinho às mais finas iguarias, da terra e do mundo, passando pelo café completo, os lanches, as minutas. Carnes, aves, legumes, saladas, massas, bolos, tortas, etc. - tudo era excelente. E os peixes e frutos do mar? Orgasmos gustativos! Igualmente podemos dizer dos doces caseiros, sólidos ou em calda, e dos salgados. O Bar do Abel era o lugar para se beber, comer, namorar, negociar, conversar, ouvir o amigo, debater, fazer alianças políticas, lançar candidaturas, inaugurar e reatar o romance, reunir, festejar, brindar, planejar a festa, resolver o problema, festejar, aniversariar, discutir o projeto, fazer as pazes, celebrar a vida. Abel de Oliveira era niteroiense, do bairro do Barreto, filho de família pobre, de muitos irmãos. Construtor naval, de formação e profissão. Creio que Abel chegou a Paraty, na segunda metade da década de 1940, com mais três niteroienses, todos jovens, formados pela memorável e prestigiosa Escola Técnica Henrique Lage: Antônio Vidal, Seu Vidal, pai do Paulinho e do Toninho, que viria a ser comerciante, dono do também famoso Bar do Vidal, na Praça da Matriz e do Serviço de Alto Falantes; Alcebíades, sogro do Aníbal Gama, que possuía barco e caminhão; e Orlando Carpinelli, pai do Caiquinho, da Rita e da Rogéria, o único que trabalhou na construção naval, com estaleiro na Praia do Pontal. Ainda jovens, suponho que todos, com exceção do Seu Vidal, casaram em Paraty, com moças de famílias da terra. Abel escolheu Benedita Vieira, a Filhinha, sobrinha de Lulu Vieira, de tradicionalíssima família paratyense, hoje servidora aposentada dos Correios, ilustre dama da sociedade paratyense, que, depois, ficou sendo “a Filhinha do Abel”. Até hoje. Do casamento de Abel e Filhinha, nasceram dois filhos: Magali e Charles. O Seu Abel fechava o bar de madrugada, sempre depois da longa e descontraída conversa com o amigo Heitor, comerciante da Rua da Praia, marido da ex-diretora do Grupo Escolar Samuel Costa, Professora Perciliana. Os quatro construtores navais, feitos paratyenses, já partiram. O mais velho, o senhor Alcebíades, foi o último a falecer. Abel de Oliveira era também um construtor civil. Autodidata, projetava e construía. E restaurava prédios antigos com maestria. Da construção naval para a construção civil. Tinha um olhar de arquiteto, cérebro de engenheiro e mãos de artesão. E, claro, muito bom gosto. Ele não foi apenas um comerciante. Foi também uma personalidade da Cultura Paratyense. Amante e protetor das artes, especialmente das Artes Plásticas, era um colecionador de quadros e esculturas, apoiava e incentivava os novos talentos e era amigo de grandes artistas brasileiros e estrangeiros. Também tinha uma grande ligação com gente do Cinema, da Música, do Teatro. Apoiava as equipes cinematográficas que vinham filmar em Paraty. Paraty inteira cabia no seu coração. Era um homem prudente, comedido, e muito generoso, bondoso com os pobres, os roceiros, os pescadores, os necessitados. Ouvia, dialogava e ajudava a todos, independente de cor, posição social, econômica, credo ou opção política. Foi vereador de mais de um mandato e candidato a vice-prefeito. Pai amigo, carinhoso, era rigoroso com os filhos, especialmente quanto aos estudos. Valorizava ao máximo a Educação e o Trabalho, pois queria vê-los formados e produtivos. Magali, professora e pedagoga, já aposentada, é poeta, autora de versos confessionais, de um lirismo telúrico. Charles Abel de Oliveira é empresário, preserva, no nome e na atividade, a marca do pai, exemplo de trabalho e probidade: é proprietário do Restaurante Abel e da Pousada Valhacouto. Abel de Oliveira, o inesquecível Abel de Paraty, cidadão e personalidade, foi um desses poucos homens transformados em ícone e mito ainda em vida. Partiu no início dos anos de 1970, deixando uma legião de amigos, muita saudade. O imóvel onde funcionava o Bar do Abel, ainda hoje é chamado de “onde era o Bar do Abel”. E, assim, sempre será.