Artigos publicados sobre assuntos de seu interesse sempre atualizados.

Marcelo Nóbrega da Câmara Torres (Angra dos Reis, RJ, 1950) é formado em Direito e em Comunicação Social pela UFF, é jornalista, escritor, editor, consultor cultural, humorista, cachaçólogo, consultor de cachaças e o único degustador profissional de cachaças em atividade no mercado. Desde a juventude, atua como criador, consultor, crítico, administrador e realizador em diversas áreas da Cultura. É autor dos livros: Crítica à Cultura Brasileira (Coronário, 2ªed., 1986); Ipanema de A a Z, Dicionário da vida ipanemense, com Mário Peixoto (Cohen, 1999); Caminhos cruzados - a vida e a música de Newton Mendonça (Mauad, 2001); Cachaça Prazer Brasileiro (Mauad, 2ª ed., 2017); Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação / drinking and learning - Practical guide to tasting (impresso e e-book, Mauad, 2006-17, e como áudio book, Livro Sonoro, 2009); e Ficha de Degustação de Cachaças Marcelo Câmara (Mauad, 2017). Publicou centenas de trabalhos de Crítica e Política Cultural, Comunicação, Humor, Artes, Ciências Humanas e Sociais, em veículos do Rio, Niterói, São Paulo e Brasília. No Rio, fez Televisão e Teatro profissionalmente. Produziu textos para Cinema, Audiovisuais e Shows Musicais, estes apresentados por ele. Repórter Especial do Jornal do Brasil (RJ, 1975) e Repórter de O Globo em Brasília, assinou colunas em dezenas de veículos de Niterói, Rio, Brasília, Angra e Paraty. Criou e editou, com o seu amigo Darcy Ribeiro, de quem foi assessor e editor no Senado Federal, a Carta' do Senador Darcy Ribeiro, à época, a mais importante publicação cultural e política do País. Redigiu e editou o jornal Goles & Tragos, da extinta Confraria do Copo Furado (1994-7, RJ), criada e presidida por ele. Participou de dezenas de antologias. Fonte e personagem de diversas reportagens, filmes e vídeos sobre temas da Cultura Brasileira, é Consultor Legislativo do Senado Federal, aposentado, onde ingressou por concurso público e trabalhou como o único especialista em Cultura. Mantêm escritório de Consultoria Cultural na cidade do Rio de Janeiro. Possui o Título Honorário de Cidadão Paratiense. Website: www.ilhaverde.net | Blog: blogmcamara.blogspot.com.br
Praça Monsenhor Hélio Pires, Centro de Paraty, 1965. Bar, Restaurante e Sorveteria São Jorge. Um dos filhos do Seu Vidal, proprietário do estabelecimento fala com ele: - Pai, posso pegar um picolé? - Meu filho, está quase na hora do almoço. Se você chupar picolé, não vai almoçar... Uma hora e meia depois: - Pai, já almocei. Agora eu posso pegar o picolé, não é? - Que gulodice é essa, menino! Pára com isto. Acabou de almoçar, tá de barriga cheia e já quer picolé?! Esta e dezenas de outras histórias do Humor Popular de Paraty, verdadeiras ou não, fazem parte do Folclore da cidade. Elas têm como protagonista um senhor simpático, alegre, de bom coração e excelente Humor. E um pai rigoroso na educação dos filhos, um trabalhador honesto, inteligente, criativo, solidário. Antônio de Oliveira Vidal. Além de comerciante, era um grande músico, bandolinista. A turma dizia: O Seu Vidal é o nosso Luperce Miranda. Outros aduziam: Ele é o Jacó do Bandolim de Paraty. Na verdade, um exímio musicista. Ele chegou a Paraty, vindo de São Gonçalo, RJ, por volta de 1944 com a sua mulher Enedina Flores Vidal, e dois filhos: Jorge, o primogênito, e Antônio. O casal pertencia às famílias tradicionais Flores e Vidal, de Saquarema, onde se casou e mudou para Neves, lugar de nascimento dos dois filhos, bairro gonçalense, limítrofe ao Barreto, último bairro de Niterói, na direção de São Gonçalo. E, rapidamente, o Seu Antônio passou a ser o Seu Vidal, de Paraty, uma personalidade respeitada e querida por todos os paratyenses. Paulo Flores Vidal, o Paulinho Vidal, um dos três filhos vivos do Seu Vidal, dos sete que o casal gerou, mora em Paraty. É um grande locutor, a melhor voz de Paraty, sempre foi e ninguém contesta, talentoso comunicador, meu amigo de infância, conta como foi a chegada do pai naquela década de 1940: Papai chegou a Paraty, já casado, com a Dona Enedina e os dois filhos mais velhos, junto com o seu amigo Alcebíades, depois sogro do Aníbal Gama. Ambos operários navais, formados, creio, pela famosa Escola Industrial Henrique Lage, de Niterói. O objetivo era levantar o estaleiro, no canto da Praia do Pontal, e construir uma embarcação de porte. Não sei pra quem, acrescentou. O certo é que, meses depois, chegaram Abel de Oliveira e Orlando Carpinelli, para auxiliar meu pai e o Seu Alcebíades. Foi o que eu ouvia quando era criança. Paulinho não sabe se eles concluíram a execução do projeto de construção do barco. Parece que sim. O certo é que, dos quatro, apenas o Carpinelli prosseguiu, até o final da vida, como construtor naval. Os outros três engajaram-se em outras atividades profissionais. Seu Vidal, pouco tempo depois, virou comerciante, abriu um bar noturno, com música ao vivo, um verdadeiro cabaré, brinca Paulinho, no térreo do sobrado do Paulo Costa e Josefina Gibrail Costa, na esquina das Ruas Dona Geralda com Maria Jácome de Mello (Rua da Lapa). Nesse bar, Seu Vidal tocava bandolim e outros músicos de Paraty se apresentavam. Havia pista de dança e muita bebida. Mas não ficou muito tempo por lá. O ALTO-FALANTE DO SEU VIDAL Seu Vidal não era o comerciante, um artista da Música, da construção naval, da carpintaria, da marcenaria, mas, também um homem curioso, intuitivo, inteligente, muito habilidoso, criativo, inventivo, que improvisava e construía, autodidata em outros ofícios. Ousava nos motores à explosão, na eletricidade, na eletrônica. Criava, montava e desmontava aparelhos. Os alto-falantes que instalou pela cidade, ainda na década de 1940, a partir de uma base de transmissão foi, para a época, um feito extraordinário de um homem que não tinha curso ou aprendizagem, experiências na matéria. Antes de 1950, o Seu Vidal já havia mudado, estava instalado, e fazendo barulho, no mimoso sobrado na Praça da Matriz, então ainda denominada Protógenes Guimarães. Hoje, ela se chama Monsenhor Hélio Pires. Fazendo barulho porque, funcionava, também, no comércio que ele abriu o Bar, Restaurante e Sorveteria São Jorge o Serviço de Alto-Falantes São Jorge, com bocas ou cornetas espalhadas não apenas na Praça, mas em vários pontos da cidade. No Serviço de Alto-Falantes do Seu Vidal, pagava-se um cruzeiro para oferecer uma música a uma moça que se desejava, a uma namorada, a um amigo, a uma vizinha, a uma autoridade. Mas os alto-falantes do Vidal ao tempo que agradavam a uns, movimentavam e alegravam a cidade, perturbavam outros que se queixavam do volume e da qualidade das músicas que soavam em alto volume naquela Paraty pacata e bucólica. Em 1950, o insuperável Rubem Braga, o maior prosador da Língua do Século XX, explicando, em 1977, à Clarice Lispector a não repercussão do que escrevia, o falso poder do escritor, declarou: ... Em 1950 fiz uma excursão a Parati e na volta escrevi uma crônica falando das belezas da terra, mas reclamando contra os alto-falantes existentes em uma praça. Eles berravam altíssimo durante toda a tarde de domingo, não deixando ninguém descansar. Soube que essa crônica tinha causado grande impressão em Parati. Voltei lá 25 anos depois e na tarde de domingo, na mesma praça, os alto-falantes ainda estavam a berrar. Ainda devem estar berrando alto em 1977. A gente escrever não adianta nada, Clarice.(...) Como já foi dito, no Brasil, o escritor escreve para os colegas". Rubem Braga se queixava dos alto-falantes do Vidal, que entravam pela noite. Mas, havia o outro lado da moeda. O Serviço de Alto-Falantes São Jorge prestava excelentes e insubstituíveis serviços de valia pública à população, num tempo em que a telefonia não existia ou era precaríssima em Paraty. Os alto-falantes do Seu Vidal, além do entretenimento e informação, convocavam pessoas, cujas presenças estavam sendo exigidas por famílias e autoridades, principalmente médicos, nas emergências; reproduziam importantes notícias nacionais e, também, de interesse local; solicitavam a ida de doadores de sangue à Santa Casa; noticiavam acidentes pedindo providências e socorro etc. Atendiam a diversas demandas sociais. O Bar, Restaurante e Sorveteria São Jorge contava com o talento e a arte culinária de Dona Enedina, quituteira das mais primorosas e elogiadas por gente da cidade e pelos visitantes de fora. Lembro-me de que muitas vezes, especialmente duas, uma vez com meu pai, e outra com o Jorginho do Mané Rita, o Jorginho Quati, o saudoso Jorge Luiz Costa Souza, meu saudoso amigo e irmão querido, tive o prazer e a alegria de almoçar no Bar do Vidal, como chamávamos. Simplesmente, refeições supimpas, fartas, de uma variedade impressionante. Maravilhosas, das entradas às sobremesas de Dona Enedina. Celestiais. Conta-se que Juscelino, certa vez, passando por Paraty, não sei se quando candidato a Presidente em 1955 ou, meio anônimo, sem mandato, após o Golpe Militar, almoçou no Restaurante do Vidal. Regalou-se, encantou-se. O Presidente presenteou o Seu Vidal com um violão autografado, que infelizmente se perdeu. Apenas existe numa fotografia guardada pelo neto Marcelo, filho do Toninho Vidal. E, depois, Juscelino enviou a Antônio de Oliveira Vidal um cartão postal de Natal, agradecendo a hospitalidade e comentando a excelência das iguarias da Dona Enedina. Histórica, social e culturalmente relevante, entretanto, um ofício, entre tantos que desempenhou, talvez, o mais importante da árdua e profícua vida de Antônio de Oliveira Vidal, nunca foi considerado e divulgado. O seu trabalho como pioneiro da Radiodifusão em Paraty, a sua função como O primeiro radiorrepórter de Paraty nunca foi considerada, louvada, ao menos registrada. Mesmo não tendo formação ou prática como repórter, o trabalho de seu Vidal com o microfone em punho, entrevistando e transmitindo, foi, verdadeiramente, uma façanha, uma ousadia daquele rapaz de Saquarema, que vinha de São Gonçalo para vencer em Paraty. O PIONEIRO DA RADIODIFUSÃO EM PARATY Desde a instalação do Serviço de Alto-Falantes São Jorge, Seu Vidal, de microfone em punho, acompanhava os principais fatos da vida da cidade, transmitindo in loco, os eventos políticos, cívicos, sociais e noticiando, com antecipação, aqueles de interesse coletivo, como os jogos esportivos, as inaugurações de obras públicas etc. Apesar de uma gagueira moderada que influía na sua fala, o Seu Vidal, falando pouco, apenas anunciando, deixando os protagonistas, os personagens dos fatos falarem, reportava, fielmente, diretamente dos locais onde se davam os acontecimentos de interesse jornalístico, a notícia de interesse da comunidade urbana. Este trabalho revela a sensibilidade e a inteligência do repórter autodidata, que percebia a importância dos atos e fatos que podiam e deviam ser notícia e que a população deveria tomar conhecimento. Até 1964, regularmente, o Seu Vidal estava presente nos eventos de Paraty para comunicar, difundir, agregar, conscientizar. Entretanto, Antônio de Oliveira Vidal não foi apenas um cidadão paratyense reto, bom chefe de família, pai dedicado, um empresário honesto e plural, de muitos fazeres. Getulista convicto, trabalhista histórico, Seu Vidal, em 1945, foi um dos fundadores do Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB. Em 1950, elegeu-se vereador como um dos mais votados (o segundo, creio), eleito pela Coligação Democrática Paratyense que unia a União Democrática Nacional UDN-PTB-Partido Social Progressista PSP, e elegeu o médico Derly Ellena, derrotando o ex-Interventor e então Prefeito Jango Pádua, do Partido Social Democrático PSD, tradicional chefe político. Uma pinga, da qual tenho o rótulo, nascia aí: a Coligada, fabricada e engarrafada por André M. de Alcântara, na Fazenda Rio dos Meros. A mais longínqua lembrança que do Seu Vidal tenho, acredito que tinha oito anos, por volta de 1958, quando ia comprar picolé no seu bar. Ele me chamava de Marcelinho. E eu perguntava, Quanto é, Seu Vidal? Ele brincava: Não é nada, seu descarado. Vai brinca mas toma cuidado... Como está seu pai? E a Dona Tudinha? (minha mãe). Quando você e seu pai vem almoçar comigo e a Enedina?. Era sempre assim: atenção, carinho, cuidado comigo, generosidade. Até 1964, o Bar, Restaurante e Sorveteria São Jorge, bem como o Serviço de Alto-Falantes São Jorge, e a família que crescia - ocupavam o cotidiano do Seu Vidal. De 1955 até o Golpe Militar, ou seja, durante os Governos Federais de Juscelino Kubitschek e João Goulart, inicialmente parlamentarista e, em seguida, presidencialista; e os Governos Estaduais de Miguel Couto, Roberto Silveira, Celso Peçanha e Badger Silveira os alto-falantes do Seu Vidal, além de cumprir a rotina comunitária, o dever social de apoiar e socorrer a população urbana, transmitiam noticiários pró-trabalhistas, pró-Juscelino e depois pró-Jango. O cenário político em todos os níveis era agitado, fervia. O Seu Vidal, como membro do PTB e apoiador do Governo João Goulart, foi um dos primeiros alvos da repressão, do regime de exceção que se instalou no País. Um Aviso (navio de passageiros) da Marinha de Guerra, vindo do Colégio Naval, em Angra, atracou no cais de Paraty, instaurando a bordo um IPM (Inquérito Policial Militar) contra Antônio de Oliveira Vidal e outros políticos de Paraty que pertenciam ao PTB. Apoiavam as Reformas de Base, e, em consequência eram contrários ao Golpe. Assim, Vidal foi acusado de divulgar os discursos da Rede da Legalidade, de 1961, de Leonel Brizola, incentivar a criação do Grupo dos Onze em Paraty, incentivado pelo líder gaúcho, e transmitir pronunciamentos de Brizola, então deputado federal pela Guanabara (onde obtivera cerca de 70 por cento dos votos válidos nas eleições de 1962), bem como as falas do Presidente da República, através de uma rádio transmissora clandestina, isto que não era verdade. O Serviço de Alto-Falantes São Jorge foi proibido de funcionar, seus equipamentos foram lacrados. Indiciados e presos foram, além de Antônio de Oliveira Vidal: o Prefeito Luiz Vieira Ramos (o Seu Lulu) e o Vice-Prefeito Irênio Marques Filho (o Ireninho); o Doutor Derly Ellena, presidente da Câmara; e os Vereadores: João Baptista de Lacerda e Vitorino Lessa. O poeta e advogado José Kleber Martins Cruz foi indiciado e preso como comunista militante. Nenhum deles era comunista (e se fossem?), mas eram contra a ruptura da ordem constitucional e a ditadura que se implantava no País. O deputado Câmara Torres, do Partido Social Progressista - PSP, que ele fundou em Paraty, não foi preso de imediato, mas dois anos depois, sem acusações formais e, ao final, com um pedido de desculpas após dez dias detido na enfermaria do Colégio Naval. O deputado, que apoiava o PTB e o Governo de Badger da Silveira, foi indiciado em outro IPM, por defender os políticos paratyenses (os citados acima), para ele, Câmara Torres, homens honrados, chefes de família, que não eram comunistas ou terroristas, como se acusava, mas, à época, apenas e circunstancialmente, seus adversários políticos locais, como já haviam sido seus correligionários em outras ocasiões. Além de apoiar e votar com o PTB, outras eram as acusações relatadas no libelo do IPM contra Câmara Torres: fazer indicações para nomeações para empregos e cargos públicos junto aos três poderes e em qualquer nível federativo de pessoa idônea e habilitada (como era, então, regular, comum, legal e de direito ao chefe político aliado ao Governo do Estado e mais importante representante do Município e Região, num tempo nos quais os concursos públicos eram inexistentes in casu); atender a demandas legítimas da população, através bolsas de estudo a jovens paratyenses e destinar subsídios da sua cota como parlamentar a instituições de educação, saúde, assistência social, lazer e esporte (o que lhe cabia e era seu dever e direito distribuir como deputado, representante do Município e Região); obter cadeiras de rodas e materiais ortopédicos, internar doentes graves fora de Paraty, quando a Santa Casa não tinha condições de fornecê-los ou tratá-los respectivamente; solicitar, com o seu poder e prestígio políticos, empréstimos aos bancos e instituições federais e estaduais às cidadãs e cidadãos paratyenses que direitos tinham e condições preenchiam para recebê-los etc. etc. etc. Nada que um político, com ética e correção, deixava e deixa de fazer, dentro dos limites das Constituições Federal e Estadual e da Lei. Ainda mais, naquele cenário precário, de isolamento e abandono no qual Paraty vivia, sem estradas, sem transportes, sem comunicações, com serviços públicos mínimos e incipientes. Resultado: todos os políticos paratyenses foram absolvidos na Segunda Auditoria da Marinha de Guerra. O IPM contra Câmara Torres foi arquivado, sob denúncias improcedentes, sem argumentos, sem provas legais e legítimas. Porém os alto-falantes do Seu Vidal continuavam mudos. O deputado Câmara Torres não só intercedeu e foi testemunha em favor dos políticos de Paraty, pela liberdade e inocência deles, como lutou, anos a fio, para liberar o funcionamento do Serviço de Alto-Falantes São Jorge. Seu Vidal, Abel de Oliveira, Ireninho, José Kleber, entre muitos outros que, localmente, eram aliados a outro grupo adversário dos correligionários do deputado depois de 1964, quando faziam oposição à Ditadura, e Câmara Torres pertencia ao partido do Governo estas pessoas jamais deixaram de sufragar o nome do deputado nas eleições de 1966, quando foi reeleito e, em 1970, quando tentou, sem sucesso, uma cadeira na Câmara Federal. Para estes eleitores de Câmara Torres, que conheciam o seu caráter e conduta, o seu trabalho por Paraty e pela Região, o voto era mais ético, político strictu sensu e pragmático, e menos ideológico, quando ideologia havia em suas mentes. CINEMA E FAMÍLIA Já quase na década de 1970, os alto-falantes do Vidal voltaram a soar. Porém, tímida e esporadicamente. Já não havia os pedidos de música, as retransmissões de jornais. Nada disto. Hoje é um dos assuntos deste texto histórico-afetivo. Nos fundos do Bar do Vidal, havia uma sala com duas mesas de sinuca, onde a turma fazia a festa: bebia-se e muito se ria, pois os personagens que freqüentavam o local lá iam mais para rir, se divertir do que seriamente jogar e apostar. Histórias de muito Humor da sinuca do Vidal se incorporaram ao Folclore da cidade, pela presença sempre animada e crítica do proprietário e seus maravilhosos diálogos com a clientela. Mas, antes disto, o Seu Vidal também foi dono do Cine São Jorge, ali mesmo na Praça, ao lado do seu bar, que depois foi propriedade do Seu Pedro, sogro do Ranulfo Calixto. Diziam que o Cine São Jorge, que, depois, passou a ser Cine São Pedro, era o único cinema do mundo onde o que ocorria na tela acontecia também na platéia. Nem sempre. Explico: é que, às vezes, quando íamos com chuva ao cinema, e no filme aparecia muita chuva, a platéia também sofria com os pingos e goteiras da sala. Dos sete filhos que Antônio e Enedina tiveram, somente a metade está viva. Jorge, o mais velho, funcionário do Banco de Brasil, partiu antes do combinado, como se diz no interior de São Paulo. Precocemente, logo que se aposentou. Estão em Paraty: Toninho (Antonio de Oliveira Vidal Filho), motorista de profissão, mas, por vocação, um artista popular de muito talento, de muitos recursos: cantor, humorista, comediante, pandeirista e contador de causos. Primoroso, extremamente criativo em suas apresentações espontâneas, amadoras, nos bares, restaurantes e botequins da cidade nos anos 1960 e 1970, se fosse descoberto pela TV ou o Teatro do Rio ou São Paulo à época, sem dúvida seria hoje um grande showman brasileiro. Toninho adoeceu em decorrência da bebida, de muitos anos de copo, inclusive comigo. Cachaça, cana, pinga, paraty a gente variava. Não sai mais de casa. Casado com Izidra, é pai de seis filhos, quatro netos, e um bisneto e uma bisneta. Os filhos de Toninho e Izidra: Antonio de Oliveira Vidal Neto, o Tony, o mais velho, é o varão que sustenta o nome pleno de história, trabalho e honradez. Luciano, ex-vereador, ex-presidente da Câmara, atualmente, é o Vice-Prefeito de Paraty. Herdou os dotes políticos do avô. Marcelo é o herdeiro do avô bandolinista. Músico autodidata, guarda e zela, com paixão, o precioso bandolim do Seu Vidal, restaurado por luthier que Jorge, filho do Seu Vidal, custou a encontrar no Rio, profissional que soubesse tornar o instrumento uma peça bela e perfeita como originalmente era. Céres, outra filha de Toninho e Izidra, é uma Técnica em Administração, inteligente, sensível e culta, que vive há muitos anos na Europa, hoje em Portugal, depois de morar muito tempo na Alemanha. Alexandre e Saulo, o caçula, completam time de Toninho e Izidra. Paulinho Vidal, o filho mais novo vivo do Seu Vidal, é também filho do Serviço de Alto-Falantes São Jorge. Jovem iniciou-se na locução e hoje é um dos sócios da Rádio Nova FM Paraty. Dono de bela e precisa, bem colocada voz, apresentador e noticiarista, Paulinho é o comunicador inteligente e sagaz, discreto e competente, que transmite alegria e esperança às manhãs de Paraty, iluminando-as com verdade. Diana, a única filha mulher do Seu Vidal, também vive em Paraty. Dona Enedina partiu a 5 de março de 1982. Mas, as virtudes, a capacidade e o trabalho do Seu Vidal não pararam por aí, no Comércio, na Música, na Radiodifusão, na Política, nos alto-falantes. No início da década de 1960, o Vidal comprou e começou a trabalhar com um caminhão de fretes e passageiros, indo às roças e delas vindo. Era o famoso Poderoso ou Treme-terra que o povo apelidava com Humor, aquele gigante, forte e antigo. Ao que me lembre era um grande caminhão GMC ou Chevrolet da década de 1950, com vasta, ampla carroceria. Toninho Vidal, que foi um exímio motorista profissional, estreou o gigante. Às vezes, o próprio Vidal, que também dirigia, comandava a nave. Depois, e definitivamente, o jovem Paulinho Vidal, também hábil e seguro profissional, antes mesmo de tirar a carteira, já rodava por todo o município, levando e trazendo mercadorias e gente, das roças para a cidade e vice-versa. A Rodovia Rio-Santos ainda não existia, a estrada Angra-Paraty (Rodovia Roberto Silveira) estava em construção. Essas eram duas lutas de Câmara Torres. Na estrada em direção a Cunha, uma terceira luta de Câmara Torres, o Poderoso só poderia ir até a Ponte Branca, talvez mais um pouco, pois era um caminho estreito e pedregoso. Era um negócio do Vidal. Mas era também um serviço de utilidade pública. Como os alto-falantes. Isto porque o Vidal não deixava ninguém na mão, a ver navios, sem transporte, ou sem movimentar a sua produção, as suas safras, viajar sem as suas compras ou sem fazer a sua mudança. Especialmente, os mais pobres, os que não tinham como vir à Santa Casa se tratar, para uma consulta, um exame, uma urgência; trazer a sua banana ao mercado ou ao cais; levar para um distrito o material de construção comprado na cidade; e outras tarefas indispensáveis ou inadiáveis. Fixado o preço, se ele visse que o cliente não tinha como pagar, abaixava, abaixava... Muitas vezes, dava carona ou levava a carga até de graça para que o paratyense fosse atendido e não ficasse em desamparo. O importante não era só trabalhar e sustentar uma grande família. Mas também servir. Ser útil, ser solidário, justo e fraterno. Querer o Bem e fazer o Bem. Eis um perfil do Seu Vidal, Antônio de Oliveira Vidal, o Amigo, Bom e Verdadeiro, que nos deixou a 15 de maio de 1977. Inesquecível. Legou-nos exemplos de Trabalho, Lealdade e Companheirismo. Lições de coragem e Vida. Um Paratyense que honrou esta Terra.