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Artigos publicados sobre assuntos de seu interesse sempre atualizados.

Marcelo Câmara

Marcelo Nóbrega da Câmara Torres (Angra dos Reis, RJ, 1950) é formado em Direito e em Comunicação Social pela UFF, é jornalista, escritor, editor, consultor cultural, humorista, cachaçólogo, consultor de cachaças e o único degustador profissional de cachaças em atividade no mercado. Desde a juventude, atua como criador, consultor, crítico, administrador e realizador em diversas áreas da Cultura. É autor dos livros: Crítica à Cultura Brasileira (Coronário, 2ªed., 1986); Ipanema de A a Z, Dicionário da vida ipanemense, com Mário Peixoto (Cohen, 1999); Caminhos cruzados - a vida e a música de Newton Mendonça (Mauad, 2001); Cachaça Prazer Brasileiro (Mauad, 2ª ed., 2017); Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação / drinking and learning - Practical guide to tasting (impresso e e-book, Mauad, 2006-17, e como áudio book, Livro Sonoro, 2009); e Ficha de Degustação de Cachaças Marcelo Câmara (Mauad, 2017). Publicou centenas de trabalhos de Crítica e Política Cultural, Comunicação, Humor, Artes, Ciências Humanas e Sociais, em veículos do Rio, Niterói, São Paulo e Brasília. No Rio, fez Televisão e Teatro profissionalmente. Produziu textos para Cinema, Audiovisuais e Shows Musicais, estes apresentados por ele. Repórter Especial do Jornal do Brasil (RJ, 1975) e Repórter de O Globo em Brasília, assinou colunas em dezenas de veículos de Niterói, Rio, Brasília, Angra e Paraty. Criou e editou, com o seu amigo Darcy Ribeiro, de quem foi assessor e editor no Senado Federal, a Carta' do Senador Darcy Ribeiro, à época, a mais importante publicação cultural e política do País. Redigiu e editou o jornal Goles & Tragos, da extinta Confraria do Copo Furado (1994-7, RJ), criada e presidida por ele. Participou de dezenas de antologias. Fonte e personagem de diversas reportagens, filmes e vídeos sobre temas da Cultura Brasileira, é Consultor Legislativo do Senado Federal, aposentado, onde ingressou por concurso público e trabalhou como o único especialista em Cultura. Mantêm escritório de Consultoria Cultural na cidade do Rio de Janeiro. Possui o Título Honorário de Cidadão Paratiense. Website: www.ilhaverde.net | Blog: blogmcamara.blogspot.com.br

                                                                      
Aloysio de Castro, Benedito Coupê e Câmara Torres: três Homens Públicos que honraram Paraty e muito fizeram  pelo seu desenvolvimento. (Acervo Marcelo Câmara)

Na sede do PSP de Paraty e Comitê Eleitoral de Adhemar de Barros à Presidência da República, em setembro de 1954. Da esq. p/ dir.: Câmara Torres (de terno branco); atrás, Norival Rubem de Oliveira; Saint Claire Bustamante e Silva; Derly Ellena, Aloysio de Castro e José Plínio Rubem de Oliveira. (Acervo Marcelo Câmara)

     
O Deputado Câmara Torres e o Prefeito Aloysio de Castro de Castro realizam, em julho de 1970, a exitosa Operação Trindade, uma caravana com mais de trinta pessoas, visando integrá-la e levar desenvolvimento à  comunidade de 1 mil habitantes, até então isolada, sem serviços públicos básicos. (Acervo Marcelo Câmara)

Aloysio de Castro (Da série: Os Paratyenses) - por Marcelo Câmara

Escrever sobre Aloysio de Castro é o mesmo que tentar escrever um texto sob o título O Prefeito de Paraty. Tricampeão. Campeão, vitorioso, não apenas na Política, mas em tudo que foi e fez na vida: filho, cidadão, desportista, chefe de família – pai, avô e bisavô – produtor rural, Político (com “P” maiúsculo), servidor público, brasileiro, paratyense. Um líder brilhante, de grande lastro e apoio popular, uma personalidade, ao mesmo tempo, simples e ilustre, humilde e elevada. Importante e influente personagem da História Recente de Paraty. Simultaneamente um homem comum, singular e plural, rico de virtudes. O “Seu Aluísio”, como o Povo o chamava, foi um homem sempre cordato, amigo, consciente e responsável, honesto, solidário, bom e justo. Aloysio nasceu numa terça-feira de Carnaval, na madrugada de 27 de fevereiro de 1925, filho de João Peixoto de Castro, família originária de Lorena, SP, onde se estabeleceu no Século XIX, e de Zulmira de Castro. Paraty, sem energia elétrica, sem estradas, vivia o isolamento quase total e a decadência econômica, esta excetuada pela fabricação de Cachaça, melado, farinha, agricultura de alimentos, a banana, a pesca, o artesanato de objetos de trabalho. Comunicação somente por uma unidade do antigo Departamento Nacional de Correios e Telégrafos, com equipamentos movidos à “bateria de garrafas”, que alimentava os telefones à manivela, os aparelhos Morse. As correspondências vinham por mar. O transporte de carga e de passageiros era quinzenal por navios de empresas que faziam parada entre o Rio e Santos. Outra empresa, durante um tempo, levava e trazia passageiros e cargas de Paraty a Sepetiba e vice-versa. Tudo instável e precaríssimo. Para sair e entrar no município, na cidade, somente por mar. Iniciava-se a construção da “Estrada Nova da Serra”. Por isto, em 1927, o Presidente da República Washington Luiz, “o paulista de Macaé”, visitou Paraty, a fim de fiscalizar as obras, logo paralisadas. Era um caminho apenas. Estrada, mesmo, somente em 1953. Ainda jovem, Aloysio ficou órfão dos pais, passando a sustentar a grande família, seus onze irmãos. O seu neto, o advogado Daniel de Castro me informa o que o avô lhe contava da sua infância e juventude. O futebol era a grande diversão do avô e da garotada paratyense. Nas peladas nos gramados da praça, os grandes amigos de futebol, do center forward Aloysio foram o ponta-esquerda Amaury Pádua, “a bomba paratyense”, um amigo inesquecível que me “vigiava” nas minhas farras precoces, quando ainda eu era menor de idade, dos quatorze aos dezoito anos; o meia, Carlinhos Conti, outro amigo querido que tenho, craque de bola, um dos maiores jogadores que a nossa terra já teve, vascaíno que treinou no Fluminense com aquele timaço dos anos 1950, ao lado de Pinheiro, Telê e Waldo. Razões particulares o impediram de permanecer no Rio e se profissionalizar. Ao lado de José Luiz Pádua e João Lucas, Carlinhos Conti forma o trio dos maiores jogadores de Paraty de todos os tempos. Isto dizem os mais antigos e os da minha geração. Dos três, eu vi jogar o José Luiz com a camisa do Chácara, e o Carlinhos, apenas brincando, “batendo uma bolinha” na praça ou na praia, nada oficial. Carlinhos explicando aos que o criticavam porque “não corria muito”, dizia: “O que tem que correr, que rolar, é a bola, não o jogador de meio-de-campo, um meia como eu. Este tem de exibir talento, técnica, inteligência, visão de jogo, saber passar, chutar, driblar, lançar...” Da turma de Aloysio, seu neto Daniel cita, ainda, o alpha esquerdo Benedicto Duarte Coelho, o Fifi Duarte, o Fifi dos Correios, amigo que me acolheu, como um pai, na juventude, muitas vezes, em sua casa, na praça, com a sua doce Silma; o grande back central Antônio Pinto da Silva, o meu querido e saudoso amigo Toninho Pinto, pessoa especial, cidadão exemplar, boníssimo e discreto como Aloysio; e o back direito Milton Bastos, o Miltinho. Nesse tempo, escreve Daniel, reportando depoimento do avô, Paraty era um oásis de paz e harmonia, quinze horas era o tempo de viagem de lancha, de Paraty ao Rio. O maior goleiro, de todos os tempos, da História do Futebol em Paraty, foi Gabriel Arcanjo Lopes de Alvarenga, conhecido como Gabriel Cagão. Um fenômeno. Jogador completo na posição, insuperável. E outro grande goleiro foi o Paschoal, goleiro do Palmeirinha, quando o Norival Rubem de Oliveira foi o Presidente do Clube. Paschoal se profissionalizou e foi titular do Flamengo de Varginha, MG. Nos anos 1960-70, também se destacaram no futebol em Paraty José Roberto e José Farias. Antes, logo após 1960, o Sérgio França, o Serginho do Nhonhô, quando foi morar em Barra Mansa por um período, mostrou-se uma promessa para o futebol profissional, mas não insistiu no projeto mesmo incentivado pelo pai, na época prefeito licenciado. Com grande potencial, revelou-se o jovem Dalton Luiz de Alcântara, o Daltinho, em meados da década de 1960, porém, também, não prosseguiu no esporte. Além do futebol, registra Daniel de Castro, os piqueniques com os vizinhos eram os melhores programas da juventude de Aloysio de Castro. Reuniam-se com ele, José Núbile França, o Zé Protásio, Isaú e Maria Sena, Seu Otacílio Silva, o sapateiro (pai do Zezeca, do Jorge e da Rosalina) e o João Campos, o Canguicho. Essa turma pontificava nos encontros no coreto da praça, nos bailes no clube e nas tradicionais festas juninas na Capelinha. Num desses piqueniques, Aloysio conheceu Maria Apparecida Paschoa e começaram um namoro que durou pouco tempo: com 27 anos, em 1952, o Seu Aloysio já estava casado com a Dona Mariazinha. Ela foi a companheira da vida inteira, esposa, mãe, dona de casa. Administrava a casa, e, com Aloysio, criou e educou, com carinho, rigor, ética e extremo zelo, os seis filhos, todos saudáveis e formados. Dona Mariazinha também foi a “Primeira Dama” de Paraty, a mulher do Prefeito por doze anos, sempre sóbria, elegante, gentil, acompanhando e apoiando o marido na sua e agitada e transparente atividade política, bem como se constituiu no porto seguro e sustentáculo no Lar, que permitia a Aloysio desenvolver, com segurança e tranqüilidade, a sua atividade política e a profissional, como produtor rural. A POLÍTICA Aloysio ingressou na Política em 1954, pelas mãos e liderança de Câmara Torres, então Técnico de Educação e Chefe da 1ª Inspetoria Escolar, que abrangia o Extremo Sul do Estado. Quatro anos antes, em 1950, Câmara Torres, jornalista, advogado e professor, como resultado da grande revolução que havia promovido na Região, construindo, equipando e colocando em funcionamento toda a rede básica de Educação Pública até hoje existente em Paraty, Angra, Mangaratiba e Rio Claro – surgia como uma jovem e impetuosa liderança comunitária e política. Rompe com o Partido Social Democrático – PSD, em virtude do não cumprimento de um acordo que tinha com o maior chefe político regional, o médico Moacyr de Paula Lobo, eleito deputado estadual quatro anos antes com o apoio do educador. E funda o Partido Social Progressista – PSP, de Adhemar de Barros. Configura-se uma ousadia e um desafio inimaginável alguém contrariar e desafiar a hegemonia e o coronelismo do PSD em Angra, em toda a Região. Câmara Torres se lança deputado e perde a eleição por uma dezena de votos. Paula Lobo tenta a reeleição e também não se elege. É o fim da carreira política de Paula Lobo, ilustre angrense, também ex-prefeito nomeado no Estado Novo, que realizou muito em benefício de Angra dos Reis, seu Povo e Desenvolvimento. Em 1950, após fundar os diretórios do PSP e construir alianças em toda a Região, inclusive em Paraty, visando a derrotar o PSD, Câmara Torres cria e costura a Aliança Democrática Paratyense, unindo, para muitos uma improvável frente: PSP-PTB-UDN, estes dois últimos, o Partido Trabalhista Brasileiro e a União Democrática Nacional, agremiações, ideológica e pragmaticamente, antípodas, adversárias em todo o Estado, em todo o País. O médico Derly Ellena, do PTB, é o candidato da Coligação que derrota a liderança cristalizada de João Apolônio dos Santos Pádua, o Jango Pádua, velho cacique amaralista, ex-prefeito nomeado, e primeiro prefeito eleito após a redemocratização em 1946, personalizado na candidatura pessedista de João Calixto. Jango dominou a política de Paraty por décadas. Foi um grande paratyense que muito trabalhou e muito fez por Paraty. Até 1950 foi um aliado do Técnico de Educação e Chefe da Inspetoria Escolar, Câmara Torres, especialmente na área da Educação, pois ambos eram filiados e apoiavam o PSD, inicialmente sob o comando do Interventor Almirante Amaral Peixoto até 1945, e, depois, sob o governo do General Edmundo de Macedo Soares e Silva, de 1946 a 1950. Derly que assumira em janeiro de 1951 só governa até março de 1952, licenciando-se do cargo, na verdade, levado a se afastar acusado de peculato, sob denúncias de desvio de verbas públicas. Assume e governa o Presidente da Câmara, Antônio Mário Pompeu Nardelli, também do PTB, que fica até junho de 1953, quando Derly retoma o Poder. Porém dias depois, a Câmara aprova o seu impedimento definitivo. Volta Nardelli ao cargo, faz boa administração, reorganiza as finanças, realiza muitas obras, promove a paz política, terminando o mandato para o qual Derly fora eleito. O médico tenta, em 1954, provar sua inocência, reúne comprovantes de despesas e ingressa na Justiça, tentando reassumir. Porém o período do seu mandato termina sem uma decisão do Tribunal de Justiça. O MAIS JOVEM PREFEITO DE PARATY Porém, será em 1954, mais uma vez com a Coligação Democrática Paratyense, unindo os três partidos, sob a liderança de Câmara Torres, que se inicia a luminosa e profícua Vida Pública, a vitoriosa carreira política de Aloysio de Castro. A chapa para as eleições municipais será encabeçada por um jovem membro do PSP, partido que Câmara Torres fundara em Paraty. Idealista e apaixonado pela sua terra, discreto e hábil articulador político, o pecuarista Aloysio de Castro, da Coligação Democrática Paratyense, vence o todo-poderoso PSD de Amaral Peixoto e Jango Pádua, derrotando, pela segunda vez, João Calixto. Com apenas 29 anos, Aloysio de Castro é o mais jovem prefeito da História de Paraty, façanha até hoje não superada. Com ele, foram eleitos, na mesma chapa da Coligação: Câmara Torres, pelo PSP, para a Assembleia Legislativa; Jonas Bahiense Lyra, pelo PTB, para a Câmara Federal; Paulo Fernandes, do PTB, foi um dos dois escolhidos para o Senado. Para o Governo do Estado foi eleito Miguel Couto Filho pelo PSD, que, quatro anos depois, ingressa no PSP e se elege para o Senado. Em 1954, a Coligação fez a maioria na Câmara Municipal. A primeira lembrança que tenho de Aloysio me faz viajar a esta época, 1954, quando nos meus quatro anos eu acompanhei meu pai na campanha da sua primeira eleição como Deputado Estadual. Aloysio era o candidato aliado a meu pai e, com eles, eu percorria serras, roças e praias. Dos quatro aos oito anos, eu sempre ficava hospedado na bela casa colonial do patriarca Octávio Gama, meu primeiro amigo em Paraty, no canto da Praia da Jabaquara, na foz do Rio do Caboclo. A diferença entre as idades, a minha e a de Otávio Gama, era de setenta anos: em 1954, ele tinha 74 anos e eu, quatro. Creio que esta foi a segunda vez que vim a Paraty, quando sofri um grave acidente ao cair na porta de entrada da casa do Senhor Octávio, ficando com uma cicatriz na testa até hoje. Na primeira vez que vim a Paraty, eu tinha apenas um ano e fiquei, com meus pais, na “Casa da Diretora” do Grupo Escolar Samuel Costa, na época, a Professora Clélia Dutra. De 1956 a meados dos anos de 1970, em várias ocasiões, estive com Aloysio na residência de meus pais, em Niterói, enquanto eu lá vivi, antes de me casar, quando ele, acompanhado de outros amigos, como Norival Rubem de Oliveira, Benedito José Melo da Silva, Paulo Carijó, entre outros, se reunia com meu pai para tratar de assuntos de interesse de Paraty, almoçava e jantava conosco. Aloysio de Castro, no seu primeiro mandato como Prefeito de Paraty, de 1955 a 1958, logo demonstrou que o Município fora honrado com um Chefe do Poder Executivo de caráter e personalidade, de fibra. Um líder altivo e operoso realizador, que colocava o interesse público, as demandas do Povo, acima de quaisquer outras. Inclusive das injunções e conveniências partidárias. Aloysio revelou-ser um político de visão, equilibrado, sereno, afirmativo, determinado, homem de diálogo, pacificador de conflitos, sempre em busca do entendimento entre as diversas correntes, com vistas ao bem comum, com o fim de promover o desenvolvimento socioeconômico e cultural de Paraty. Excelente administrador, soube escolher bem seus auxiliares e colaboradores que trabalhavam com disciplina e afinco, dentro dos seus limites técnicos, da miséria legislativa e orçamentária imposta às prefeituras, e das precárias condições financeiras e de logística, de meios e recursos materiais existentes à época. EM 1957, CÂMARA TORRES E ALOYSIO DE CASTRO VÃO AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA PEDIR A PAVIMENTAÇÃO DA PARATY-CUNHA O primeiro mandato de Aloysio de Castro como Prefeito de Paraty, ao período de 1955 a 1958 percorreu um tempo em que as prefeituras municipais possuíam pouquíssimos recursos para realizar obras, executar projetos. A receita municipal, oriunda dos tributos e taxas urbanas e rurais, era pequena, e os desafios, o que a Prefeitura deveria fazer e prover eram imensos. O Fundo de Participação dos Municípios reservava minguados milhares de cruzeiros ao Governo Municipal. O Deputado Estadual Câmara Torres, como o próprio Aloysio confessa mais tarde, era o representante do Município na Assembleia Legislativa, junto aos Poderes do Estado, e sem o apoio, a parceria do parlamentar pouco ou quase nada o Prefeito de Paraty poderia fazer em benefício da sua Gente. Sem a presença do Governo do Estado, sem as verbas estaduais, sem os convênios entre o Estado e a Prefeitura, as obras, a manutenção e melhoria dos serviços públicos restariam como sonhos, o progresso se inviabilizaria. Com a união de Câmara Torres e Aloysio de Castro, a Educação, a Saúde, o Abastecimento d’Água, a Urbanização, o apoio e fomento à Agricultura, à Pesca e à Pecuária, os Serviços Públicos estaduais e do Município, a abertura e conservação das estradas municipais – todos esses setores receberam estímulos e tiveram avanços no primeiro governo de Aloysio de Castro. Afora a exemplar organização administrativa e financeira da Prefeitura, uma formidável revolução urbana foi promovida na sede do Município, que culminou com a conclusão do Plano de Urbanização de Paraty em meados de 1958. Assim, a Avenida Ozéas Martins de Almeida, foi alargada e urbanizada; foi construído o muro do campo de futebol (Estádio Antônio Nardelli); o “Bairro do Matadouro” se expandiu; a Prefeitura doou terrenos aos que pretendiam construir e/ou empreender, dentro das normas e limites do Código de Obras e Posturas, segundo Plano de Urbanização que se implementava. Uma segunda Adutora para o abastecimento de água para a cidade foi construída, aproveitando a capacidade da Cachoeira do Caboclo. A Prefeitura disciplina o surgimento e ocupação da localidade do Patrimônio, em área da antiga Fazenda Paraty-Mirim. Em abril de 1957, o PSP, Seção do Estado do Rio de Janeiro aprovou e reconheceu o Diretório Municipal de Paraty. Para a Tesouraria Geral, foi eleito o Prefeito Aloysio de Castro. O Presidente do Partido era Norival Rubem de Oliveira e o Primeiro Vice-Presidente, Abel de Oliveira; Presidente de Honra, Saint Claire de Bustamante e Silva. A seguir alguns membros com cargos no Diretório: 1º Secretário, Tancredo Pimenta de Oliveira; 1º Tesoureiro, Benedito Malvão Júnior; 2º Tesoureiro, Aníbal Gama; 2º procurador: Maria Stella de Araújo; 1º Diretor: Irênio de Araújo Marques Filho; 2º Diretor: Benedito Telmo Coupê. O Presidente do Conselho Municipal do PSP era José Albino Moreira e o 1º Secretário, Pedro Silvestre dos Santos. Entre os Membros militantes do Partido estavam: Silvia Rubem de Oliveira Malvão, João Albino Moreira, Benedito Valentim dos Santos, Benedito do Espírito Santo Minair, Antônio Cândido Bullé, José Vieira Ramos Filho, Azôr Gama, Benedito Alves Cananéa e Acácio Penha. Em setembro de 1957, o Deputado Câmara Torres e o Prefeito Aloysio de Castro vão ao Presidente da República, Juscelino Kubitschek, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, com mais quinze prefeitos paulistas, solicitar a conservação e trafegabilidade permanentes, e a pavimentação, da Estrada Paraty-Cunha, que consideram vitais para o desenvolvimento socioeconômico do Município. Aloysio de Castro e Câmara Torres unem esforços e pressionam o Governo do Estado para a melhoria do transporte marítimo de passageiros entre Paraty, Angra, Mangaratiba e Ilha Grande, preservando e ampliando o número de lanchas e viagens do Serviço de Navegação Sul Fluminense, sempre ameaçado de extinção. A Agricultura, a Pecuária e a Pesca tiveram a atenção do Governo Municipal, estimulando a organização dos lavradores, criadores e pescadores, a obtenção de crédito e estímulos à produção. Na Capital, Niterói, Câmara Torres luta e obtém a aprovação de lei que devolve a Paraty o grau judiciário de Comarca, que havia perdido subordinando-se a Angra dos Reis. Foi no primeiro mandato de Aloysio de Castro que a antigo “Caminho da Serra de Paraty” foi transformado em “Estrada Paraty-Cunha”, precariamente transitável, é verdade, mas o primeiro acesso rodoviário ao Município. PREFEITO NOVAMENTE E A RODOVIA ROBERTO SILVEIRA Em 1966, Aloysio de Castro é eleito pelo povo, pela segunda vez, para ocupar o cargo de Prefeito de Paraty. Desta vez pela ARENA 2, vencendo o antigo correligionário e ex-Presidente da Câmara Municipal, o advogado Irênio de Araújo Marques Filho, o saudoso Ireninho, candidato da ARENA 1, indicado pelo médico Derly Helena, com o apoio do Prefeito Luiz Vieira Ramos, afastado pelo Golpe de 1964, e cujo mandato, de 1964 até aquela eleição, foi cumprido pelo então Vice-Prefeito, Sebastião Gonçalves Rosa. Esse segundo mandato de Aloysio, eu acompanhei bem de perto, pois foi uma época na qual eu vivi intensamente Paraty. Aqui passava as férias escolares, de inverno e de verão, as festas, o Carnaval, os feriadões e até mesmo os finais de semana, pois vivi um consistente namoro com uma jovem da cidade por mais de dois anos e não ficava sem vê-la mais de trinta dias, apesar das quatorze horas de viagem por terra e mar. Construí uma população de grandes amigos no Município, alguns herdados de meu pai, que, pela quarta vez consecutiva, representava Paraty na Assembleia Legislativa do RJ. Uma das façanhas mais importantes do segundo Governo de Aloysio de Castro, que trouxe grandes benefícios para Paraty, realizada junto e graças ao trabalho político-parlamentar do seu aliado, o Deputado Câmara Torres, junto aos governos estaduais de Paulo Torres e Geremias Fontes, e mais, com a lealdade e determinação do Deputado Federal e Secretário de Transportes, Mário de Abreu – foi a abertura e trafegabilidade da Rodovia Roberto Silveira, ligando Angra a Paraty, iniciada no Governo Roberto Silveira. No governo municipal anterior de Antônio Núbile França, o Nhonhô, o Governador Roberto Silveira, que teve morte precoce em acidente aéreo em 1961, já demonstrava, também graças ao trabalho do Prefeito anterior Antônio Núbile França, o Nhonhô, e Câmara Torres, sua amizade e carinho com o Povo de Paraty, resolvendo, em 1959, o problema da energia elétrica na sede do Município, com a instalação de usina termoelétrica, permitindo, depois, a expansão da energia para as zonas periféricas e rurais. Este foi um tempo, entre 1963 e 1974, que vivi Paraty freneticamente, cada manhã, cada tarde, noite e madrugada. Tempo de rapaz estudante, de muito amor, ternuras, amizades, Humor, alegrias. Meu pai, eu me lembro, me dava à época, quarenta, cinquenta cruzeiros ou mil cruzeiros, não me lembro, para eu começar a passar as férias em Paraty. Pedia para eu obedecer ao Fifi e à Silma, ou ao João Ramiro e Geísa, ou à Dona Cininha e à Dona Matilde, ou ao Abel e à Dona Filhinha – dependendo da casa onde eu me hospedava. Dizia mais: Não beber muito. Dormir cedo etc. etc. E sugeria: “Se precisar de dinheiro, peça ao Aloysio ou ao Abel. Quando eu voltar a Paraty, acerto com eles”. Meus amigos, de gozação, corromperam a sugestão de meu pai: “Marcelo, o quê? Quanto você quer? Cem? Oitenta? Pra que cinquenta? Vinte é muito. Toma dez. E se precisar de dinheiro, peça ao Toninho Vidal.” Mas, na realidade, quando o dinheiro acabava, quase sempre, eu procurava o Aloysio, ia à simpática janela da casa de esquina das Ruas da Capela com Doutor Pereira. Lá estava o Aloysio, sereno, sorridente: “Quanto é que você quer? Seu pai me ligou, pediu para eu ficar de olho em você. Cuidado, Marcelo, com as farras, a pinga...”. E eu dizia: “Está tudo bem. Fique tranqüilo”. A segunda opção era o Seu Abel. Não havia terceira. Certa vez, me recordo bem, creio que o ano era julho de 1966. Eu fui à casa do Aloysio, pois o dinheiro havia acabado e eu queria ficar mais uma semana em Paraty, fora do previsto. Não o encontrei em casa. Eu voltei para a casa da Dona Cininha, na Rua Dona Geralda, ao lado do PAC, hoje Casa da Cultura Câmara Torres, onde eu passava férias. Encontrei com o Ernani Simão na esquina daquela rua com a Praça. Nessa época, creio que o Ernani era o discotecário do PAC e começamos a conversar sobre os The Beatles e ele me falou do disco Help, o último do grupo, que eu sempre emprestava ao Clube. Ele me falou que o sonho dele era possuir “aquele disco de músicas maravilhosas”. Na hora, tive uma ideia. Perguntei ao Ernani se ele queria comprar o LP por dez ou dez mil cruzeiros, não sei. Na hora nem pensei que o disco fora presente de uma ex-namorada, com dedicatória. Era o que eu precisava para ficar mais uma semana bebendo pinga e cerveja e jogando sinuca na cidade. Para ir embora, o Aloysio ou o Abel me dariam dinheiro para a viagem. O Ernani topou na hora, fizemos negócio e eu fiquei mais uma semana em Paraty. Recentemente, rememorei o episódio ao Ernani. Ele não se lembrou. Certamente, o disco até hoje existe e está nos guardados dele. O TRICENTENÁRIO DE PARATY Aloysio de Castro, em seu segundo mandato, fez um governo inteligente, dinâmico e corajoso no enfrentamento dos graves problemas que persistiam em maltratar a população. Com o apoio e a parceria incondicional do Deputado Câmara Torres na Assembleia Legislativa e junto aos órgãos estaduais e federais, Aloysio pugnou, criticou, reivindicou, e obteve, em parte, recursos financeiros, materiais e humanos para o município em todas as áreas: Educação, Saúde, Transportes, Comunicações, Energia, Meio-Ambiente, Turismo. Muitas escolas foram construídas e estradas municipais, abertas e conservadas. Câmara Torres e Aloysio construíram a Escola da Trindade, praia e localidade, então de difícil acesso, denominada “escola isolada, oceânica”. Em 1967, dois fatos importantes. Em fevereiro, iniciaram-se as celebrações do Tricentenário da Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty, a emancipação política de Paraty, efetivada, legal e oficialmente, com a edição da Carta Régia de 28 de fevereiro de 1667, de Dom Afonso VI, que confirmou a autonomia de fato, ocorrida com a Revolta Popular de 1660, liderada Domingos Gonçalves de Abreu. O Deputado Câmara Torres foi um dos principais apoiadores e realizadores dos festejos que contou com um amplo programa político, histórico, social, religioso e artístico-cultural, que incluíram vários eventos e tomou grande parte do ano. O parlamentar obteve verba extraordinária do Estado para custear a realização dos eventos e a produção de peças comemorativas, bem como, ao lado do Prefeito Aloysio de Castro, do Presidente da Câmara, Paulo Carijó, e do advogado e jornalista José Gerardo Barreto Borges, que morava e trabalhava em Paraty – foram conseguidos diversos patrocínios e apoiamentos de grupos e empresas privadas, com empreendimentos no município ou onde os seus proprietários possuíam casas de veraneio, para custear eventos e produzir peças comemorativas. A criação e edição de belíssimo cartaz, a cores, sobre a Efeméride couberam ao grande pintor, proprietário em Paraty e amigo da cidade, o saudoso e internacional pintor Frank Shaeffer. O cartaz foi premiado no maior certame do gênero do mundo realizado na Polônia. O poeta, compositor e cantor paratyense José Kleber lançou, pela RCA Victor Eletrônica Brasileira, o disco Serenata em Paraty, no formato compacto duplo, com capa da também internacional e consagradíssima pintora Djanira, trazendo quatro de suas preciosas canções, ícones e hinos da Cultura Paratyense: Chiba do Valhacouto, Tudo isto é Paraty, Agora é vida e Balada de Paraty. BRASÃO E BANDEIRA Aloysio iniciou a construção da rede de esgotos da cidade, extinguindo o sistema centenário de fossas sanitárias que comprometia o lençol freático. Também combateu e intensificou a fiscalização quanto aos esgotos in natura que eram lançados no Rio Perequê-Açu, no qual a poluição se manifestava. Era o início do saneamento urbano concluído anos depois, seguindo-se as diretrizes e critérios do Plano Integrado de Paraty, que teve o fundamental respaldo e acompanhamento político de Câmara Torres, bem como a sua influência, através de senadores e deputados federais aliados, em Brasília. No segundo Governo de Aloysio, por iniciativa e com o trabalho de Câmara Torres, mais o entusiasmo e o apoio da Professora Geísa Panaro Ramiro – nasceram o brasão e a bandeira de Paraty (Lei 373, de 2.8.1967), criação de um amigo do Deputado, o famoso heraldista, historiador e poeta Alberto Lima. Câmara Torres selecionou e reuniu os dados essenciais sobre a História e a Cultura do Município para o trabalho do artista. O mesmo fez Câmara Torres ao solicitar os serviços de Alberto Lima para criar os brasões e bandeiras de Angra dos Reis, Mangaratiba (anteriores a Paraty), bem como os símbolos de Rio Claro e Caicó (RN), sua cidade natal. Ainda em 1967, Aloysio de Castro esteve com sua equipe no Congresso de Prefeitos do Estado do Rio de Janeiro, realizado no Estádio Caio Martins, em Niterói. Aloysio de Castro, em sua segunda gestão como Prefeito, com proficiência, atitude, decisões e providências, por mais de uma vez, enfrentou grandes enchentes dos rios, que, no encontro com altas marés, inundaram a cidade, vitimavam a população, especialmente as dos bairros mais pobres, na periferia da cidade. Medidas relacionadas ao socorro das pessoas, abrigo, assistência à saúde e alimentação foram tomadas para assegurar a segurança e bem-estar das pessoas atingidas, bem como a realização da dragagem e limpeza dos rios, principalmente, do Perequê-Açu. Em 1968, Aloysio administrou, com serenidade, diálogo e ação, como era do seu estilo, mais um movimento separatista em Paraty, que pretendia passar o Município para o Estado de São Paulo, uma lembrança do Século XVIII, quando a Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty pertenceu, por um período de apenas dois anos, de 1720 a 1722, à Capitania de São Paulo. Era a terceira vez que um movimento desta natureza aflorava: a primeira em 1951, liderada pelo então Prefeito Derly Ellena; a segunda, em 1958, capitaneado pelo vereador José Gibrail. Desta vez, a campanha teve à frente o nosso amigo Antônio Conti, paratyense apaixonado pela sua terra. Aloysio enfrentou a campanha com firmeza, politicamente, mostrando ao Governo do Estado que o movimento em sua terceira versão era uma reação natural das lideranças, urbanas e rurais, comunitárias e empresariais, contra o descaso com o Município, o tradicional e descabido adiamento da solução dos graves problemas estruturais de Paraty que dependiam da ação estadual. Na verdade, esses movimentos “plebiscitários”, que se repetiram depois, nas décadas de 1970 e 1980, nunca pretenderam tirar Paraty do Estado do Rio de Janeiro. Tratou-se, apenas, de um instrumento de pressão social e política das lideranças e do povo paratyense contra os sucessivos governos, que o relegaram, por décadas, ao abandono, como se não fizesse parte da entidade federativa, como se não fosse fluminense. Foram formas de sacudir os governos para que o Município Monumento Nacional, único com esta natureza no País, que tem uma parte tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, outra ocupada por áreas e parques florestais nacionais e estaduais de preservação ambiental absoluta ou sob rigorosa regulação, e, ainda, uma terceira por áreas marinhas com legislação de proteção ambiental e biológica extrema, sob normatização severa – passasse a ser respeitado e considerado, pudesse progredir com sustentabilidade, e sua população alcançasse um Índice de Desenvolvimento Humano –IDH, ao menos digno e aceitável, dentro dos padrões civilizatórios contemporâneos à época. ANTÔNIO CONTI Conheci Antônio Conti no início da década de 1960 em Niterói, onde as nossas famílias moravam. Creio que ele trabalhava numa empresa de seguros. É filho do Senhor José Conti, de família tradicional de Paraty. De vez em quando, pela manhã, nos dias úteis, entre as oito e as nove horas, ele, no caminho para o trabalho que ficava no Centro da cidade, passava lá em casa para ver meus pais. Antônio surgia na minha casa, em Icaraí, sempre impecavelmente vestido, de terno e gravata, sapatos lustrosos, bem penteado e barbeado. Muito simpático, gentil, alegre, falava muito do seu amor e da saudade que tinha de Paraty, do seu irmão Carlinhos, dos outros irmãos e primos, de toda a Família Conti. Eu e ele conversávamos muito sobre Paraty, dos amigos comuns, das comidas, da Cachaça, das belezas da cidade. Ele tinha, se não estou enganado, um carro norte-americano da marca De Soto, do ano 1951 ou 1952, todo original em suas peças e acessórios, painel de madeira, estofamento de couro, lindo, muito bem cuidado, confortabilíssimo, sempre muito limpo, brilhando. A cor? Cinza ou bege ou verde claro, não consigo me lembrar com precisão. Antônio me dava uma carona para o centro da cidade, para onde geralmente eu ia a fim de ajudar meu pai: resolver pequenos problemas que me pedia nas Secretarias de Estado, em órgãos públicos, geralmente de interesse de gente de Paraty, Angra, Rio Claro, Mangaratiba. Confesso: Antônio dirigia mal. Mas se gabava: “Marcelinho, nunca bati com meu carro na vida”. Eu pensava em silêncio: “Mas quantas pessoas bateram por causa de você, por conta da sua direção perigosa...” Reencontrei Antônio Conti em Paraty na segunda metade dos anos 1960 e início dos anos 1970, de botas e chapéu de fazendeiro. Dirigia um jeep, era grande amigo e compadre de Aloysio de Castro, de quem dizia ser sócio nos negócios agropecuários, no sítio do primeiro. Bradava muito, quase sempre atabalhoadamente, sem cerimônia ou protocolos, a qualquer custo, de qualquer maneira, em qualquer lugar, pelo asfaltamento da Estrada Paraty-Cunha. Nunca teve cerimônia para clamar e implorar pela pavimentação da estrada junto a governadores, ministros, senadores, deputados, reis, rainhas, ditadores, o bispo e o Papa, seja lá qual fosse a autoridade. Esta era uma luta de Câmara Torres e de Aloysio de Castro, contínua, que travavam juntos, desde que se conheceram e entraram na Política no início dos anos 1950. Em 1957, como vimos, os Deputado e Prefeito foram juntos ao Presidente Juscelino Kubitschek pela conservação e pavimentação “inadiável” da estrada. Esta luta foi, também, de outros paratyenses e de outros prefeitos desde que a “estrada” foi “reaberta”, como Derly Ellena, Antônio Nardelli, Antônio Núbile França, o Nhonhô, Norival Rubem de Oliveira, que foi vice, substituiu e terminou o mandato do primeiro, Luiz Vieira Ramos, o Seu Lulu. Até 1970, também todos os vereadores que compuseram a Câmara, com destaque para Benedito Coupê, Paulo Carijó, Antônio Mello, Jair da Silva – todos, de todos os partidos, foram incansáveis na luta pela pavimentação da Estrada Paraty-Cunha. A propósito, em 1998, a Estrada RJ-165, Paraty-Cunha recebeu o nome de Rodovia Benedito Telmo Coupê (Dito Coupê) pelo Decreto Estadual 24.366. Dezenove anos depois, a Lei Estadual 7.556 de 17 de abril de 2017, derivada de Projeto do Deputado Edson Albertassi, revogou a homenagem a Coupê e deu novo nome à Paraty-Cunha: Estrada-Parque Comendador Antônio Conti. O mais antigo documento que possuo em meu acervo sobre a Estrada Paraty-Cunha são dois artigos, de dezembro de 1942, do jornalista José Augusto da Câmara Torres na coluna Hora Fluminense, que ele assinava na primeira página do jornal O Estado, à época o mais importante do Estado. Câmara Torres havia sido nomeado a 31 de março Técnico de Educação e Chefe da 1ª Inspetoria de Ensino, e a 12 de abril desembarcava em Paraty pela primeira vez. Nesses dois artigos, ele discorre sobre as potencialidades do Município e a importância de se transformar, se aproveitar, no que fosse possível, o antigo “Caminho do Ouro” em uma estrada que o ligasse a São Paulo, ao Vale do Paraíba. Os outros três documentos históricos que possuo em meu Acervo sobre a Paraty-Cunha são: um filme que documenta as obras de abertura da Estrada em 1953; a foto de Juscelino Kubtischek com Aloysio de Castro e Câmara Torres, quando o Prefeito e o Deputado foram ao Palácio do Catete reivindicar a conservação e pavimentação da Paraty-Cunha; e uma carta de 1959, do então Prefeito Antônio Núbile França, o Nhonhô, dirigida ao Deputado Câmara Torres, combinando uma visita de ambos ao Governador Roberto Silveira, a fim de tratarem da “conservação da Estrada Paraty-Cunha”. Em 1973, eu, Marcelo Câmara, filho de Câmara Torres, cometi a “loucura”, a aventura, o desafio, de trazer, pela primeira vez à cidade, através da Estrada Paraty-Cunha, um ônibus monobloco (“rabo quente”, com motor traseiro), da marca Mercedes Benz. Eram veículos bem maiores do que aqueles da Viação São José, que faziam a linha Guará-Cunha-Paraty. Foram horas de viagem de Cunha a Paraty, perigos, manobras de centímetros junto a barrancos, pedregulhos e precipícios, muita tensão e medo. O ônibus trazia o Grupo de Teatro da UFF, o primeiro grupo oficial da Universidade Federal Fluminense, por ela mantido, do qual eu era ator, que apresentou na Igreja do Rosário, o clássico O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. A excursão cultural contou com a organização e o apoio, em Paraty, do então Diretor do CEMBRA, Professor Benedito José Melo da Silva, o Dedé. Na platéia, paratyenses de todas as idades, turistas, muitos artistas como a consagrada Maria Della Costa, dona do Hotel Coxixo, e a presença do genial ator Paulo Autran, proprietário da Pousada Pardieiro, que aplaudiu a atuação dos universitários. Durante três dias do mês de setembro de 1968, Paraty sediou o II Encontro Municipalista do Sul Fluminense, um evento político-administrativo criado por Câmara Torres, que reuniu representantes de Angra dos Reis, Rio Claro, Mangaratiba e Itaguaí. O I Encontro realizou-se em Angra dos Reis. O Prefeito de Paraty, Aloysio de Castro, foi o Presidente de Honra do II Encontro, e Paulo Carijó, o Presidente. No início de junho de 1969, a pedido do Deputado Câmara Torres, o Governador Geremias Fontes recebeu no Palácio do Ingá, o parlamentar acompanhado do Prefeito de Paraty, Aloysio de Castro, vereadores, representantes das classes produtoras, que formalizaram diversos pleitos de interesse da população. Encontros como esses, do Deputado e do Prefeito com o Governador, contam-se dezenas nas duas primeiras administrações de Aloysio. Desta vez, o Governador reafirmou à comitiva o reinício das obras de reconstrução da Estrada Paraty-Cunha, “única formula para salvar, de imediato, a economia da Cidade Colonial que se encontra estacionada e em dificuldades para progredir”. No momento que atendia ao Deputado e líderes paratyenses, o Governador redigiu bilhete ao Diretor do Departamento de Estradas e Rodagens – DER, Heródoto Bento de Mello, determinando “urgência urgentíssima” nas obras da estrada. Ao Prefeito de Paraty, o Governador fez a doação de uma ambulância para o Serviço Médico Volante do Município e concedeu auxílio à Prefeitura para a montagem de um gabinete dentário do Grupo Escolar Samuel Costa. Foi nesse segundo governo de Aloysio de Castro, com a participação do Prefeito, que foram iniciadas pelo Deputado Câmara Torres as manifestações na Assembleia Legislativa, contatos com autoridades estaduais, reuniões e tratativas com Ministérios e órgãos federais, visando à elaboração de dois documentos, duas ferramentas fundamentais que salvaram o Bairro Histórico e o litoral do município, da degradação, do desastre patrimonial e ambiental, da ocupação criminosa do solo, do Turismo irracional e devastador. Esse dois instrumentos viabilizaram a entrada de Paraty no Século XXI, desenharam a perspectiva e a possibilidade de Paraty receber, da UNESCO (processo ainda em curso) o título e a condição de “Patrimônio Cultural da Humanidade”. Foram: o Plano Integrado de Desenvolvimento de Paraty, ainda hoje em execução, que planejou o desenvolvimento sustentado do Município e a preservação do Centro Histórico; e o Projeto Turis, que previu a ocupação ordenada, a proteção ambiental, a exploração do Turismo, no litoral do Rio a Santos, infelizmente, cumprido em parte, em suas diretrizes e metas fundamentais. O arcabouço de leis, normas, regras e critérios, de políticas que existem atualmente, aplicável e esse litoral, derivam e foram inspirados no Projeto Turis. Ambos foram patrocinados, respectivamente, pelo Ministério do Planejamento e pela EMBRATUR. O primeiro elaborado por um consórcio de empresas privadas, contratado sob licitação; o segundo, obra dos próprios técnicos da EMBRATUR. Câmara Torres e Aloysio de Castro trabalharam muito, acompanharam, diuturnamente, os trabalhos dos técnicos no Rio e em Paraty. Os dois planos foram concluídos durante o Governo seguinte, do Prefeito Paulo Carijó. OPERAÇÃO TRINDADE Em 1970, Câmara Torres, com a ajuda da Assistente Social e Professora Doutora Violeta Campofiorito Saldanha da Gama, Diretora da Escola de Serviço Social, da Universidade Federal Fluminense, com o apoio do Governo do Estado, da UFF e da Prefeitura de Paraty, planejaram, lideraram e realizaram, com o Aloysio de Castro, a memorável Operação Trindade, na Praia da Trindade, uma localidade de Paraty, a três horas por mar da sede do município, a 42km de distância terrestre, por caminhos e trilhas (não havia estradas), cuja comunidade de 1 mil pessoas vivia há mais de duzentos anos isolada da civilização. Um grupo de médicos, dentistas, sociólogos, engenheiros, professores e assistentes sociais, além de cientistas e tecnólogos da Fundação de Estudos do Mar, pessoal da Prefeitura de Paraty – fez um diagnóstico antropológico, sociocultural e econômico da localidade, de uma população que vivia, e vive, numa belíssima praia de três quilômetros, em mar aberto e se alimentavam da pesca, raízes, legumes, hortaliças, caça e frutas. Professores residentes e que trabalhavam na Cidade de Paraty, bem como servidores públicos do Estado e da Prefeitura se juntaram ao grupo para o trabalho pioneiro, quase uma Descoberta do Brasil séculos depois, um reconhecimento da terra. O objetivo de Câmara Torres, da Professora Violeta e de Aloysio de Castro era, a partir do levantamento de necessidades e carências em todas as áreas, era proteger a comunidade e a sua Cultura, promover o bem-estar e a felicidade da população, planejando e promovendo a sua integração ao Município, ao Estado, ao País, visando à melhor qualidade de vida dos trindadeiros. A quase totalidade da população era analfabeta, não sabia ler ou escrever, apenas cem crianças frequentavam a escola, o número de eleitores aptos a votar era de apenas uma dezena. Não conheciam a Bandeira do Brasil e nunca haviam ouvido o Hino Nacional, não sabiam que a Seleção Brasileira de Futebol havia conquistado o tricampeonato mundial. Muito menos conheciam rádio e televisão. Toda a população professava a fé protestante. Algumas doenças crônicas e hereditárias foram diagnosticadas. A desnutrição e a ignorância alimentar grassavam. Comuns eram as avitaminoses, como a falta de absorção de vitamina “A” que acometiam vários moradores com deficiência visual, alguns já completamente cegos. Foram encontradas, também, pessoas, crianças, adultos e idosos, com deficiências nutricionais e problemas ortopédicos, alguns destes genéticos, que os impediam de caminhar e ter uma vida normal, ativa, vivendo décadas sobre camas, catres e esteiras. Muitos homens, aos quinze, dezesseis anos, embarcavam em barcos de pesca para trabalhar e rumavam para Santos. Outros nasciam e morriam na Trindade, sem nunca ter saído da praia, entre o mar os paredões de pedra e florestas da Serra do Mar. Os mais velhos contavam que seus ancestrais eram mestiços, descendentes do cruzamento dos índios com portugueses (colonizadores, viajantes, piratas e aventureiros) e se alimentavam basicamente de peixes, frutos do mar e caça, principalmente de carnes de macacos, abundantes na região. Alguns, no limiar dos noventa, cem anos, não conheciam sequer a sede do Município, a cidade de Paraty. INTEGRAÇÃO E DESENVOLVIMENTO Elaborado um consistente e detalhado Relatório da Operação Trindade, que apresentava a realidade humana, antropossocial, cultural e física da Trindade, apontando o que o Estado e o Município podiam fazer para melhorar a qualidade de vida e o desenvolvimento humano da localidade, o Deputado Câmara Torres, a Professora Violeta Saldanha da Gama e Aloysio de Castro, junto ao Governo do Estado, aos diversos órgãos públicos, promoveram diversas ações, fizeram denúncias junto à Imprensa, executaram amplos e diversificados projetos da Assistência Social em seus diversos campos e caminhos: na Educação Fundamental, na assistência básica à Saúde (vacinação, orientação alimentar e planejamento familiar), na organização dos pescadores e apoio à atividade, serviços de Extensão Rural à Agricultura e criação de animais, produção de objetos de trabalho, Artesanato, Artes (música, canto, dança), na valorização das manifestações culturais, materiais e imateriais (literatura oral, modos de pensar e fazer), visando à preservação do Patrimônio Cultural Caiçara então vigente. Assim, foram equipadas e contaram com mais recursos a Escola Primária e um Posto de Saúde, com ambulatório e gabinete dentário. A recém-construída Escola da Trindade recebeu mais e melhor mobiliário, novos e modernos equipamentos. A escola foi mais bem equipada, ampliada e reformada. O Deputado Câmara Torres, durante os seus quatro mandatos de Deputado Estadual sempre foi conhecido como “O Deputado da Educação Pública”. Era o parlamentar que mais subia à tribuna para falar sobre o tema, que mais legislava sobre o assunto. O Deputado Câmara Torres, antes do início da Operação Trindade, esteve, em audiência, com o então Governador Geremias Fontes, cuja ida à comunidade estava prevista, mas não se efetivou. O Governador aprovou, aplaudiu e incentivou o empreendimento assistencial, prometendo ao Deputado e ao Prefeito Aloysio de Castro, “a mobilização e concurso de todas as Secretarias de Estado para resolver os problemas da Trindade, especial e emergencialmente, aos relacionados à Educação e à Saúde”. O Governador examinou, inicialmente, a possibilidade de instalação de um curso de alfabetização de adultos e de uma biblioteca na única escola da Trindade, então recentemente inaugurada. Autorizou a remessa imediata de medicamentos, vacinas, material sanitário, alimentação escolar e material esportivo visando ao desenvolvimento físico das crianças, além do mobiliário para as duas professoras que estavam dormindo no chão, em esteiras. Praticamente, tudo que foi prometido com a Operação Trindade, foi cumprido. No ano seguinte à Operação Trindade, 1971, Câmara Torres não era mais Deputado, apesar de dirigir diretórios partidários municipais, ser um líder político influente, de prestígio e fortes relações políticas e institucionais, e, ainda, com capital eleitoral para contribuir com a eleição de candidatos em vários níveis. As leis que beneficiavam o professorado estadual, primário e médio, na sua maioria, nasceram de projetos seus ou tiveram a sua combativa defesa em dezesseis anos de quatro mandatos ininterruptos. Mesmo depois de ter deixado a Assembleia Legislativa, Câmara Torres continuou a influir na edição de leis na área da Educação e da Cultura no Estado. Antes de terminar o seu último mandato em 1970, ele apresenta Projeto, que se transforma em Lei, sancionada no ano seguinte, que estabelecia proventos especiais, acima dos normais, para os professores lotados nas chamadas “escolas oceânicas”, onde somente o acesso se dava por mar, aberto e bravio, quando o embarque e o desembarque se tornavam difíceis e perigosos, condenando os professores ao isolamento, quase a um “degredo funcional”. Era o que ocorria, por exemplo, com as Escolas da Trindade e Praia do Sono, em Paraty. Assim, tais professores não teriam apenas as gratificações das “escolas de difícil acesso”. A lei aumentou, significativamente, os vencimentos professores designados para tais escolas. Em função desse estímulo remuneratório e do apoio do Governo do Estado e da Prefeitura de Paraty, as unidades ganharam muito em seu nível de excelência, eficiência e eficácia, sendo lotadas, a partir de então, por professores, jovens rapazes, determinados, naturais de Paraty, formados em Paraty. Enfim, a Operação Trindade resultou em muitos frutos sociais e econômicos, em elevação do índice de desenvolvimento humano daquela comunidade de pescadores, antes isolada, estagnada e sem recursos, e para o próprio município, que a integrou definitivamente ao seu mapa político e social. Hoje, a Trindade está completamente integrada a Paraty, com estrada asfaltada e serviços públicos básicos à disposição da comunidade. No entanto, outros problemas surgiram com o Turismo: tráfico e consumo de drogas, criminalidade, disputa e conflitos por posse e propriedade de terras, poluição ambiental (do mar, rios, matas e trilhas), ocupação irracional do solo etc. DERROTAS ELEITORAIS Nas eleições de 1970, com o apoio de Aloysio de Castro e de Câmara Torres, Paulo Carijó foi eleito Prefeito. Mudanças na Lei Eleitoral reduziram o seu mandato para apenas dois anos. Mas, em 1972, Aloysio sofre a sua primeira derrota eleitoral. Edson Dídimo Lacerda, do MDB, jovem comerciante, filho do experiente vereador João Baptista de Lacerda, se elege Prefeito Municipal de Paraty. A vaidade, a arrogância, a soberbia, eram pecados que Aloysio de Castro não os tinha. Ao contrário, a humildade, o saber ouvir, a simplicidade, estavam entre as virtudes do líder de grande apelo popular, muito respeitado por todos, inclusive os seus adversários, que gozava de prestígio popular incontestável. Dez anos depois, em 1982, mesmo com dois mandatos bem sucedidos como Chefe do Poder Executivo Municipal, Aloysio de Castro foi o candidato a Vice-Prefeito na chapa da ARENA encabeçada por Benedito Telmo Coupê, o Dito Coupê, de grata e saudosa lembrança de todos os paratyenses. Dito Coupê já havia sido vereador por dois mandatos, fora Vice de Aloysio, era um cidadão honrado, querido pela população, um empresário de sucesso, exercia significativa liderança política no Município. Mas Coupê e Aloysio foram derrotados por Edson Lacerda, que assumia a Prefeitura pela segunda vez. Semelhante a Câmara Torres, Aloysio de Castro entendia, sentia e fazia Política como um Serviço Público, uma doação à Causa Pública, um serviço à comunidade que o elegia. O Poder não o fascinava a ponto de pavonear-se, levá-lo à empáfia, ou a claudicar na retidão e na lisura no cumprimento dos seus mandatos. Nem o sucesso ou a fama o corrompiam a ponto de mentir, dissimular, enganar, trair ou delinquir. Cuidava da coisa pública com responsabilidade, decência, impessoalidade, publicidade e absoluta moralidade. Há pouco, quando da sua partida, um paratyense comentou comigo: “Curioso, Marcelo, é que, a partir da década de 1960, falou-se em alguns atos de corrupção, de improbidade administrativa, de desvios de dinheiro etc. de prefeitos de Paraty. No entanto, nunca o nome de Aloysio de Castro foi citado ou esteve sob suspeita, em qualquer forma ou circunstância, acerca de algum ato político ou administrativo-financeiro impróprio, inadequado, irregular, ilegal, desonesto”. Eu respondi ao meu amigo: “Aloysio foi um homem inteiriço, um Político integérrimo. Para ser como Aloysio de Castro e Câmara Torres, o Homem Público, além da vocação, da lucidez, da inteligência, dos talentos, da sensibilidade humana – deve ostentar honorabilidade e retidão incondicional, respeitar as diferenças de ideias e condutas, convivendo, aprendendo e se enriquecendo com elas; possuir visão social e política, vislumbrar horizontes para a sua terra e o seu povo, o qual deve conhecer profundamente; capacidade de doação, disponibilidade para servir, e jamais ser servido; renúncia aos interesses e fazeres pessoais e familiares em favor das causas coletivas, do munus que recebeu do povo; desprendimento, identidade e empatia com os representados; e, por fim, vontade, coragem e aptidão para criar, somar, unir, promover convergências, construir, realizar”. Aloysio de Castro nunca dependeu da Política ou de cargos públicos para viver, chefiar e manter a família. Perdida uma eleição, voltava a se dedicar integralmente ao seu sítio de pecuária e agricultura, produção leiteira, fabricação de queijos. A sua rotina incluía cuidar do rebanho bovino, manter a vacinação e a boa saúde do gado e dos outros animais, lavrar a terra, colher os frutos do trabalho rural, as prêmios da terra, as verduras, os legumes. Inesquecíveis, famosos, “os queijos do Seu Aloysio”. O queijo mussarela do sítio era insuperável. Quem provava, jamais esquecia a textura, o aroma, o sabor, a qualidade superior. Nas lides do campo, seus amigos inseparáveis, fiéis parceiros, foram Benício Góes, Manoel João de Oliveira, José Cândido de Oliveira, o Zé da Miloca, Ozório Gonçalves dos Santos e Benedito Lourenço, o Dito Queijeiro. O TERCEIRO MANDATO DE PREFEITO Em janeiro de 1987, Aloysio de Castro volta à Prefeitura de Paraty para cumprir o seu terceiro mandato, eleito em novembro no ano anterior, pelo Partido Democrático Trabalhista, de Leonel Brizola. O PDT obtém a maioria na Câmara Municipal com cinco vereadores, contra quatro do PMDB. O advogado, poeta e compositor José Kleber Martins Cruz vai exercer o seu primeiro mandato como vereador na sua terra. No PDT, ele atua no apoio a Aloysio. Aloysio, pela terceira vez, faz um excelente governo, mesmo tendo nos dois primeiros anos de sua gestão no Governo do Estado um feroz adversário de Brizola e do PDT: Wellington Moreira Franco. Câmara Torres já não era Deputado há dezessete anos, mas, além de militar e influir na Política da Região, mantinha boas relações com o Governador, que muito o respeitava, ouvia e admirava o ex-Deputado. Câmara Torres era amigo dos seus sogros à época: Amaral Peixoto, eleitor de Câmara Torres no pleito de 1986 para a Assembléia Legislativa (disputa inoportuna para ele, que não a desejou, imposta por amigos de Paraty e Angra); e de sua mulher, Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha de Getúlio Vargas, que nutria um carinho pelo ex-Deputado e lhe distinguia com atenções. Assim, Câmara Torres ajudou muito a Aloysio na sua administração. Como sempre, a Educação e a Saúde, o Abastecimento d’Água, o Saneamento, as estradas para o escoamento da produção, a Pesca, o agricultor, a Habitação, as Comunicações, o Meio-Ambiente, a Assistência Social – eram as principais preocupações de Aloysio. Várias escolas foram construídas, reformadas, ampliadas na sede do Município e nas áreas rurais. A Escola Municipal da Mangueira ganhou mais dez salas de aula para atender o crescimento dos bairros de Mangueira e Ilha das Cobras. O Posto de Saúde da Patitiba também foi ampliado, modernizado, ganhou gabinete dentário, mais espaço e equipamentos para atender a demanda crescente. Aloysio de Castro cria, através da Lei 814, de 16.4.90, a “Fundação Casa da Cultura de Paraty”, que em 2000, passa a denominar-se “Fundação Câmara Torres – Casa da Cultura de Paraty”. Finalmente, em 2004, tomou o nome definitivo e atual de Casa da Cultura Câmara Torres, entidade cultural, sediada num sobrado de propriedade da Prefeitura, que, gerida por uma ONG, planeja, administra e realiza grande parte das atividades e eventos culturais no Município, preservando, interpretando, divulgando e desenvolvendo a Cultura de Paraty. DARCY RIBEIRO E A PARATY-CUNHA Em 1991, eu ainda morava em Brasília, onde vivia desde 1977. Consultor Legislativo do Senado Federal, a partir de 1985, onde ingressei através de rigoroso e concorrido concurso público de provas e títulos, realizado durante um ano na Universidade de Brasília – em 1991, eu assessorava, com exclusividade, o meu amigo e mestre Senador Darcy Ribeiro, de quem também eu era Editor no Senado Federal. Numa determinada tarde, recebo a inesperada, grata e feliz visita, no Gabinete de Darcy, do Prefeito Aloysio de Castro, do Presidente da Câmara, Vereador Sérgio de Souza França, o Serginho Nhonhô, e do professor e engenheiro Jorge Boueri Filho, filho do saudoso Boueri, tido como o desbravador que reabriu a Estrada Parati-Cunha em 1953 e trabalhou na abertura da Estrada Angra-Paraty na década de 1960, origem da futura Rio-Santos. Os três vinham procurar Darcy Ribeiro, por meu intermédio e com a minha ajuda, a fim de que eu convencesse o Senador e o influenciasse para que ele fosse mais um defensor, um ativista pela pavimentação da Estrada Parque Paraty-Cunha. Jorge, que eu não via desde os anos 1960, quando éramos colegas de férias na cidade, onde os pais tinham uma casa no caminho do Pontal, na Rua da Santa Casa, próximo à praia, era um profissional respeitado Doutor em Arquitetura, professor universitário, estudioso e especializado em Levantamento Viário Ambiental. Apaixonado por Paraty, como o seu pai, Boueri, ele estava, assim como Aloysio e Sérgio, seguros e entusiasmados com o acerto da decisão de pavimentar a Estrada, que ela não iria degradar o Parque Nacional da Serra da Bocaina, mas, ao contrário, proteger, preservá-lo. Ao invés de supostos riscos, do terrorismo de falsos ecologistas que falseavam a realidade com jargões e mentiras, a pavimentação seria um elemento fundamental e indispensável para proteger a floresta, a flora, a fauna, todo o meio-ambiente. Na sua pasta, Boueri trazia dados consolidados, informações valiosas, estudos feitos por ele, por outros especialistas e instituições, que provavam, técnica e cientificamente, a positividade e a viabilidade de pavimentação da Paraty-Cunha, que a pavimentação da Estrada Parque, com um bom e amplo Plano de Manejo, seria um benefício, uma solução, e não um problema, para o Parque, para a Natureza, para Cunha, Paraty, toda a Região. Conversei com Darcy sobre Paraty, a Estrada, os visitantes e suas propostas. Já havia falado sobre a Estrada com ele mais de uma vez. Apresentei-os ao Senador. Em seguida, nos reunimos, eu, Aloysio, Sérgio e Boueri com Darcy em seu Gabinete por um bom tempo. O Prefeito Aloysio falou, firme e politicamente, sobre a importância da pavimentação para Paraty, o seu povo e desenvolvimento, para o futuro de Paraty, apoiado com intervenções oportunas de Sérgio França. Os dois auto-avalizaram suas posições como membros do PDT, partido do Senador e do Governador Leonel Brizola. Eu havia feito um roteiro e conduzi a reunião. Boueri foi incisivo, enfático, apresentando dados, na defesa da pavimentação como uma forma de promover a Sustentabilidade Ambiental da Estrada. Ao final do encontro, o Senador bateu o martelo: “Marcelo, vamos passar um fax urgente para a Tânia“, a Presidente do IBAMA, à época, Tânia Maria Tonelli Munhoz. ”E mais dois: uma para o Goldenberg (Ministro do Meio-Ambiente) e outro para o Brizola”. Nos três, Darcy Ribeiro solicitava atenção, recursos urgentes, inadiáveis para a pavimentação. E ditou os três textos para mim. Revisamos todos a quatro mãos. Darcy atendia, integralmente, as reivindicações do Prefeito e do Vereador, e absorvia, também integralmente, as teses de Boueri pela pavimentação. Aloysio aproveitou a receptividade de Darcy Ribeiro e reivindicou: “Marcelo, peça ao Senador para conseguir com o Governador Brizola, um ônibus escolar para Prefeitura, a fim de levar as crianças que moram distantes da escola.” Darcy também atendeu ao pedido de Aloysio, encaminhando-o à Secretaria de Educação. E, por fim, solicitou a nomeação de uma professora da terra, afinada com o Governo Municipal, para dirigir o brizolão de Paraty. Este pedido eu encaminhei, por telefone, à Tatiana Memória, que era a pessoa do Darcy na área da Educação no Rio, responsável pelas lotações desses cargos. Aloysio, Sérgio e Boueri ficaram muito satisfeitos com a recepção que tiveram, o acolhimento que lhes concedi, a minha intermediação, a audiência com o Senador. Durante os anos de 1991 e 1992, Darcy, várias vezes, por telefone e por fax (o e-mail não era comum) falou, na minha presença, com a Presidente do IBAMA, com o Ministro do Meio-Ambiente e com o Governador Brizola, reivindicando a pavimentação da Estrada. Na verdade, o lobby míope e burro dos “ecologistas”, dentro e fora do Governo Federal, era forte, poderoso, terrível. Os embargos do IBAMA, de órgãos ambientais, irracionalmente, se sucediam há décadas. Câmara Torres lutou durante toda a sua vida, contra eles, na Assembleia Legislativa e junto aos governos federal e estadual. Darcy insistia, adotando as teses de Boueri e de Câmara Torres: “Sem pavimentação, não há como salvar o Parque. A pavimentação viabiliza a administração, a fiscalização. Vai evitar a degradação, o desmatamento, ação dos madeireiros, caçadores e palmiteiros”. Ainda em 1991, o Prefeito Aloysio de Castro enviou convite ao Senador Darcy Ribeiro, para que ele participasse de uma “Passeata Ecológica” no Alto da Serra de Paraty, e de lá até a cidade de Paraty, pela pavimentação da estrada. A Passeata iria reunir prefeitos, deputados federais e estaduais, vereadores, líderes comunitários, empresariais e políticos, ecologistas, cientistas e técnicos de órgãos públicos e instituições privadas, para dialogar sobre a viabilidade da pavimentação da Estrada-Parque, os supostos e possíveis “riscos” e “perigos” ambientais que ela poderia trazer ao Parque Nacional da Serra da Bocaina. Darcy, com a agenda preenchida, desculpou-se com o Prefeito e comunicou que eu iria representá-lo no evento, me designando oficialmente, determinando que eu trouxesse um Relatório da viagem. Tendo eu óbices familiares intransponíveis para deixar a cidade onde resida por mais de vinte e quatro horas, o Senado emitiu passagens aéreas Brasília-Rio-Brasília, para eu ir a Paraty, deixando Brasília no primeiro voo, e retornando no mesmo dia à noite. A Prefeitura de Paraty disponibilizou veículo para me apanhar no aeroporto no Rio pela manhã e me levar de volta à noite. Chegando a Paraty pela Rio-Santos, segui, direta e imediatamente, do trevo na entrada da cidade em direção ao Alto da Serra. Antes de chegar à divisa entre os Estados do Rio e São Paulo, encontrei, na verdade, uma “carreata” em direção a Paraty. Apresentei-me ao Prefeito Aloysio, cumprimentei autoridades e subi na carroceria de uma caminhonete onde estavam dois Deputados Federais de São Paulo, participantes e interessados na pavimentação da Estrada: Geraldo Alckmin, do PSDB, representante de Pindamonhangaba e região, atual Governador de São Paulo; e Flávio Feldman, “ecologista” militante, do mesmo partido, que, depois, ingressou no Partido Verde. Na carroceria, as conversas logo revelaram Alckmin uma pessoa simples, gentil, político de visão, a favor da pavimentação. Feldman criticava sem parar a pavimentação, com modismos verdes, argumentos esdrúxulos. Assim, descemos a Serra e chegamos a Paraty, já passando das 14 horas, quando nos dirigimos ao Forte Defensor Perpétuo, onde o Prefeito Aloysio de Castro ofereceu um almoço aos convidados. E muita conversa aconteceu, com a minha participação, entre os defensores da pavimentação e os ecologistas raivosos. Expus a posição do Senador Darcy Ribeiro a favor da Estrada-Parque. Retornei a Brasília, partindo de Paraty antes do anoitecer. Em Brasília, redigi e entreguei o necessário Relatório, e, dias depois, o Senador Darcy Ribeiro me incumbe de convidar os dois Deputados, para um almoço no restaurante do Senado, a fim de conversarmos sobre a Estrada-Parque Paraty-Cunha. Almoçamos – eu, Darcy e Alckmin, este sempre cordato e inteligente, o que encantou o Senador, conversou muito sobre política, Paraty, a região, e pontificou na sua postura favorável à pavimentação, “fechando” com Darcy. Fábio Feldman recusou o convite de Darcy Ribeiro e não compareceu ao almoço. Vale registrar que esse trabalho do Prefeito Aloysio de Castro junto a Darcy Ribeiro, que tive a honra de intermediar e participar, levou o Senador a me solicitar uma minuta, ao final de 1992, de uma importante Emenda para o Orçamento de 1993, destinando quantia vultosa e suficiente para a pavimentação da Estrada-Parque Paraty-Cunha. Darcy apresentou apenas duas Emendas ao Projeto do Orçamento naquele ano: uma delas contemplou Paraty. A Emenda foi acolhida pelo Relator, aprovada, incluída no Orçamento, porém não sei se os recursos foram disponibilizados, realmente aplicados, pois os embargos e óbices do IBAMA e do Ministério do Meio-Ambiente à pavimentação prosseguiram nos Governos Itamar, FHC, Lula e Dilma. Vindo requisitado pelo Tribunal Regional do Estado do Rio de Janeiro ao Senado Federal para assessorar a Presidência da Corte, voltei ao Rio em 1993 e não mais acompanhei ou tive notícia da execução do Orçamento daquele ano. De 1990 a 1994, foram feitos os estudos e levantamento viário ambiental para diagnóstico e o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA); em 1997 foi elaborado o Plano de Manejo para o Parque Nacional da Serra da Bocaina; e, em 1998, Jorge Boueri Filho e mais três técnicos, seus colegas da Universidade de Taubaté, entregaram ao IBAMA o Programa de Sustentabilidade Ambiental da Estrada Paraty-Cunha. Já passou da hora da Câmara Municipal de Paraty outorgar ao arquiteto Doutor Jorge Boueri Filho, o Título de “Cidadão Paratyense”, pois seu amor a Paraty está na luta incansável que travou com o IBAMA pela pavimentação da Estrada Parque Paraty-Cunha. SAÚDE E NOVOS BAIRROS Em janeiro de 1992, Aloysio de Castro sanciona a Lei 885 que encampa a Santa Casa de Misericórdia de Paraty, transformando-a em Hospital Público Municipal, com o objetivo de viabilizá-la, regularizando a sua vida institucional, administrativa e financeira, ampliando a sua estrutura, capacidade, e serviços, para melhor atender à população. A Avenida Beira Rio, atual Avenida Octávio Gama, à margem esquerda do Rio Perequê-Açu, recebeu urbanização e iluminação pública. As terras que pertenciam ao patriarca Octávio Gama se transformam num novo bairro: Caboré, que passou a reunir o maior número de pousadas da cidade. Outro bairro na antiga Chácara do Monsenhor Hélio Pires, vigário de Paraty por quarenta e dois anos, de 1910 a 1952: é o Parque Imperial. Aloysio exerceu também as funções de servidor público estadual, como Fiscal de Caça e Pesca, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro, cargo e emprego para o qual foi indicado pelo Deputado Câmara Torres, dividindo seu dia de trabalho com o sítio de sua propriedade que dirigia. Homem dinâmico, participativo da vida social e cultural, política e econômica de Paraty, com ou sem mandatos, sempre foi visível, relevante, destacada, a sua presença nos fatos da História Recente do Município. Católico praticante, foi Tesoureiro da Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, pertenceu a Irmandades, foi Festeiro do Divino, jamais se omitindo como cristão fiel, cidadão de fé, contribuindo sempre com o seu trabalho voluntário e seu espírito gregário, no sentido de servir à Igreja e à Comunidade. Cultivou, com leal sentimento, uma legião de amigos leais, da qual jamais se afastou e que sempre lembrava com afeto. Uns faleceram antes dele, outros assistiram a sua partida: João Ramiro, Henrique Valle, Jorge Bianchini, José Plínio Rubem de Oliveira, Assis Goulart, José Augusto da Câmara Torres, Derly Ellena, Jair Silva, José Carlos de Oliveira Freire, o Zezito, Juliano França, João da Itatinga, Sérgio de Souza França, Antônio de Oliveira Vidal Filho, Antônio Núbile França, o Nhonhô, Jair da Silva (da Trindade), Norival Rubem de Oliveira, Aníbal Gama, Aldmar Gomes Duarte Coelho, Benedito Telmo Coupê, Newton Cananéa, Benedito José Melo da Silva, o Dedé, Cilencina Rubem de Oliveira, Cininha, José Kleber, Benedito Domingos Gama, Henrique Stanisce, Humberto de Souza França, o Betinho Nhonhô, Epaminondas de Mello, entre outros. Foram muitos, todos, seus amigos. Quase sempre correligionários e eleitores, que estiveram ao seu lado “fazendo Política por amor a Paraty, num espírito de Democracia participativa, de governança compartilhada”, como registra Daniel de Castro, seu neto. Aloysio de Castro, já idoso, lembrava: "Eu sempre deixava a prefeitura, graças a Deus, de cabeça erguida, fitando o povo nos olhos, seguindo com meu único carro a vida toda, o fusca, partindo para a minha única profissão - leiteiro". Na sua casa, recebia a todos, eleitores ou não, adversários ou não, amigos ou desconhecidos: caboclos, empresários, magistrados, Deputados, Senadores, Secretários e Governadores de Estado, Ministros da República. “Alguns lá pernoitavam”, registra Daniel. Certa vez, revelou, recordando os momentos difíceis que viveu na História de Paraty: “De mim, só lembravam nas horas difíceis da Política. Ela, para mim, não foi um projeto de vida, um objetivo, mas um destino, obra do acaso”. ÚLTIMOS ENCONTROS A penúltima vez que nos falamos foi em 1998, durante o Festival da Pinga. Encontrei-o próximo à ponte do Perequê-Açu, ele conversava com um deputado estadual do RJ, representante de Itaboraí. Aloysio me apresentou ao parlamentar e falou: “O Marcelo é filho do Doutor Câmara Torres, meu amigo, correligionário e compadre. Foi deputado por quatro mandatos representando Paraty, que muito lhe deve. Tudo que conseguimos em termos de desenvolvimento do início dos anos 1940 até hoje, devemos ao Doutor Câmara. Primeiro como Técnico de Educação, depois como nosso representante na Assembleia Legislativa. Eu, por exemplo, que fui prefeito três vezes, somente consegui governar e realizar por Paraty, pelo povo paratyense, com a sua ajuda, tendo o Doutor Câmara ao meu lado”. O deputado se manifestou: “Ah, sim, já ouvi falar muito do Câmara Torres. E sempre muito bem”. Estávamos em maio de 1998. Em agosto, meu pai faleceu. Aloysio e mais três ou quatro pessoas de Paraty estiveram no velório e no enterro em Niterói. Foi a última vez que estive pessoalmente com Aloysio de Castro. Porém, a última vez que falei com Aloysio de Castro foi por volta de 2007, por telefone. Ele já estava idoso, sua audição afetada e o seu tradicional raciocínio, sempre rápido e exato, já não era o mesmo. Comuniquei-lhe que o então prefeito, marido de uma de suas filhas, insistia em não cumprir uma lei municipal em vigor há três anos que denominava a Casa da Cultura, “Casa da Cultura Câmara Torres”. Ele não ouviu bem ou não acreditou no que eu disse. Pediu para eu repetir. Eu o fiz. E ele subiu o tom da voz, indignou-se: “Mas, como? A lei não está em vigor?” Respondi-lhe: “Sim”. E ele retrucou: “Então, é só cumprir a lei. Não é possível. Isto é uma barbaridade. Não há o que se discutir. O nome da Casa da Cultura é Casa da Cultura Câmara Torres. E ponto final”. Eu respondi: “Verdade. Mas o prefeito resiste, incide, reiteradamente, em atos de improbidade administrativa”. Aloysio completou: “Fique tranquilo, Marcelo. Vou tomar pé da situação. É inadmissível, isto é um insulto à memória do Doutor Câmara”. Aloysio, à época com 82 anos, parece que não conseguiu fazer com que a Lei Municipal 1414, de 2004, fosse aplicada. Nem a recomendação do Ministério Público do RJ, decorrente de duas Representações que estavam sendo processadas, convenceu o Prefeito. Somente em novembro de 2015, atendendo ao Ministério Público do RJ, e, após persistente trabalho do seu Assessor Parlamentar, Antônio Carlos Marques, o Toninho Marques, o Prefeito Casé Miranda determinou que a Lei, resultado de um projeto de sua autoria quando vereador, fosse cumprida pela ONG que administra a Casa da Cultura. A homenagem a Câmara Torres foi uma ideia de José Conti Miranda, o Zé do Hugo, formalizada em uma proposta do Doutor Luiz Carlos de Castro, filho de Aloysio, quando presidia a Subseção de Paraty da OAB, criada e instalada pelo advogado Câmara Torres, então Presidente da Subseção de Angra dos Reis. A Casa da Cultura Câmara Torres é uma instituição de natureza cultural, que funciona num imóvel de propriedade da Prefeitura Municipal de Paraty. Aloysio nasceu num Carnaval e partiu a 27 de fevereiro de 2017, segunda-feira de Carnaval, aos 92 anos de idade. Deixou seis filhos, onze netos e oito bisnetos. Entre eles, três notáveis cidadãos, herdeiros do seu nome, os estudiosos e ilustres advogados: Luiz Carlos Castro e seus filhos Daniel de Castro e Roberto Luiz S. de Castro. Aloysio foi um Homem do seu Tempo, que honrou Paraty. Amou, criou e construiu. Prezava e praticava o Bem, o Bom e o Justo. Altivo cidadão, admirável chefe de família, político de escol, valoroso Homem Público. Um exemplo e uma inspiração para as gerações. Caráter, dignidade, retidão, trabalho, serviço a Paraty, ao seu Povo, Cultura, Desenvolvimento e História.