Artigos publicados sobre assuntos de seu interesse sempre atualizados.

Marcelo Nóbrega da Câmara Torres (Angra dos Reis, RJ, 1950) é formado em Direito e em Comunicação Social pela UFF, é jornalista, escritor, editor, consultor cultural, humorista, cachaçólogo, consultor de cachaças e o único degustador profissional de cachaças em atividade no mercado. Desde a juventude, atua como criador, consultor, crítico, administrador e realizador em diversas áreas da Cultura. É autor dos livros: Crítica à Cultura Brasileira (Coronário, 2ªed., 1986); Ipanema de A a Z, Dicionário da vida ipanemense, com Mário Peixoto (Cohen, 1999); Caminhos cruzados - a vida e a música de Newton Mendonça (Mauad, 2001); Cachaça Prazer Brasileiro (Mauad, 2ª ed., 2017); Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação / drinking and learning - Practical guide to tasting (impresso e e-book, Mauad, 2006-17, e como áudio book, Livro Sonoro, 2009); e Ficha de Degustação de Cachaças Marcelo Câmara (Mauad, 2017). Publicou centenas de trabalhos de Crítica e Política Cultural, Comunicação, Humor, Artes, Ciências Humanas e Sociais, em veículos do Rio, Niterói, São Paulo e Brasília. No Rio, fez Televisão e Teatro profissionalmente. Produziu textos para Cinema, Audiovisuais e Shows Musicais, estes apresentados por ele. Repórter Especial do Jornal do Brasil (RJ, 1975) e Repórter de O Globo em Brasília, assinou colunas em dezenas de veículos de Niterói, Rio, Brasília, Angra e Paraty. Criou e editou, com o seu amigo Darcy Ribeiro, de quem foi assessor e editor no Senado Federal, a Carta' do Senador Darcy Ribeiro, à época, a mais importante publicação cultural e política do País. Redigiu e editou o jornal Goles & Tragos, da extinta Confraria do Copo Furado (1994-7, RJ), criada e presidida por ele. Participou de dezenas de antologias. Fonte e personagem de diversas reportagens, filmes e vídeos sobre temas da Cultura Brasileira, é Consultor Legislativo do Senado Federal, aposentado, onde ingressou por concurso público e trabalhou como o único especialista em Cultura. Mantêm escritório de Consultoria Cultural na cidade do Rio de Janeiro. Possui o Título Honorário de Cidadão Paratiense. Website: www.ilhaverde.net | Blog: blogmcamara.blogspot.com.br
Sem modéstia, e com orgulho, sou internacionalmente considerado o maior especialista em Cachaça. Sobre o tema, vivo, estudo, penso, critico, proponho, publico, realizo, dele me ocupo, intelectual e profissionalmente, há mais de cinquenta anos. Além dos meus três livros nas áreas da Ensaística Cultural (pensamento, crítica e políticas culturais), Sociologia e Música, sou autor de outras três obras de vanguarda, únicas no mundo, no universo da bebida nacional. Publiquei centenas de ensaios e artigos sobre Cachaça, de (e sobre) Humor, Folclore e nessas outras áreas. Penso que, por isto, em 2004, fui contratado pela II FLIP Festa Literária Internacional de Paraty, para escrever uma coluna no site do evento sob o título Falando de Cachaça. De fevereiro a julho daquele ano, publiquei seis textos sobre a História da Cachaça de Paraty, sua origem, tradição, ícone socioeconômico e cultural, seu prestígio internacional de quatro séculos, e o percurso de cada uma das marcas então existentes, incluindo a saga de cada família produtora. O meu trabalho foi um sucesso, recebeu muitos elogios e teve notável repercussão, principalmente fora de Paraty. No município, apenas alguns alambiqueiros e conterrâneos o comentaram, louvaram o meu pioneiro trabalho. No ano seguinte, já profissional reconhecido e aplaudido pela FLIP, propus à coordenação do evento, em sua terceira versão, que se organizasse um encontro, em uma das tendas armadas na praça, sobre a vida e obra do maior artista paratyense: José Kleber Martins Cruz (Paraty *30.7.1932 idem 7.2.1989). A Flip não respondeu ao meu e-mail, ignorou a proposta. Grosseira e estupidamente, deletou o autor e a proposta. Nem acusou o recebimento. E, num furto cretino, se apropriou do meu projeto aproveitando algumas idéias, realizando, pelo que soube depois, uma homenagem tosca, manca, bisonha, a José Kleber, longe do que eu havia sugerido, distante da dimensão que o artista merece. Eu havia proposto à Flip um encontro de personalidades para expor, pensar e discutir a estética e a obra de José Kleber, encontro que deveria ser incluído na programação principal da Festa. Nada de evento marginal, periférico, menor, Flipinha, programação paralela e outros arranjos, fugas e subterfúgios. Julguei, erroneamente, que seria intenção da organização da Flip ter Paraty não apenas como chão, cenário, um belo palco para os seus cometimentos, que ela não estaria alheia e desinteressada pela preciosa e diversificada cultura local, crítica que muitos paratyenses sempre fizeram à Flip. Acreditei que a Flip, naquela terceira edição, iria, finalmente, reconhecer a Cultura, os temas e personagens da terra, dar espaço a um artista paratyense de fôlego nacional e internacional. Enganei-me. Roubaram a minha idéia e a apequenaram com um eventozinho na tal programação paralela. Um prêmio de consolação a Paraty, pra enganar paratyense. A uma breve exposição biográfica sobre o homem e o artista, seguiriam três rodas de debates sobre a sua obra poética, o ator de teatro e cinema, o cantor, compositor e artista plástico. Em cada rodada, sob mediação, artistas, estudiosos, críticos de respeitabilidade nacional, conhecedores da obra de José Kleber, alguns que conviveram e trabalharam com ele, seria discutido o seu pensamento, a sua estética, o seu modo e processo criativo, os seus trabalhos. Ao final, Vicente e Aldo Cruz, violão e voz, irmãos de José Kleber, apresentariam algumas das suas composições. O projeto foi adiado, nunca realizado. Talvez algum dia, longe da FLIP, por gente séria, mais inteligente e sensível, mais culta, mais próxima da alma, da História e da Cultura de Paraty, ele seja efetivado. Poeta, músico, cantor, compositor, ator e artista plástico, José Kleber, o Zé Kleber, como o Povo o chamava, foi um criador febril e plural. Erudito e popular. Clássico e contemporâneo. Também advogado, promotor público e político, foi assassinado logo depois de tomar posse como vereador pelo PDT. Em 1962, fora candidato a Prefeito pelo Partido Socialista Brasileiro PSB. O Kleber fazia arte, era arte em tudo. Um artista brilhante, imenso, inteiriço. Uma personalidade e um personagem, culto e simples, político e lírico, um esteta pleno de criatividade e fazimentos. Um menino e um homem, paratyense dos pés à cabeça, antes de qualquer outra condição ou circunstância, e apesar de tudo. Um paratyense do nosso cotidiano, do nosso convívio, que se tornou eterno, um mito verdadeiro, ainda em vida. Um cidadão comum e único. Um santo sem altar, respeitado e venerado por todos. Seu ofício, sua missão, seu templo, sua vida, era Paraty. Tudo isto é Paraty cantou em uma das suas canções, sintetizando o seu universo. Primeiras lembranças A mais antiga lembrança que tenho de José Kleber, creio, foi de um fato ocorrido quando eu ainda era menino, por volta de 1959, em uma das vezes que acompanhava meu pai a Paraty, ele, então cumprindo o segundo dos quatro mandatos de deputado estadual, representando Paraty na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Foi no famoso Bar do Abel, numa noite, quando José Kleber tocou violão, cantou e declamou poemas de sua autoria. Impressionou-me muito o desempenho do poeta e cantor, pois mesmo naquela idade, já em mim aflorava as vocações para as Letras e as Artes em geral. Lembro-me de que, quando chegamos ao hotel onde estávamos hospedados, meu pai me falou do talento e da arte de José Kleber, me informando que ele era também ator e advogado, notável tribuno. Meu pai foi grande amigo de José Kleber, era uma sólida amizade e uma elevada admiração mútua, que transcendia os encontros e desencontros político-partidários que os dois tiveram durante suas vidas. José Kleber foi eleitor de meu pai algumas vezes e não sufragou seu nome em outras eleições. Uma íntima e afetuosa dedicatória que ele escreveu a meu pai, na falsa folha de rosto do seu primeiro livro, o clássico Praia do Sono, de 1957, prova o vínculo, atesta o que afirmo. Por sua vez, as famílias Martins e Cruz, principais troncos genealógicos de José Kleber, e aquelas que com estas se cruzaram, dentro e fora de Paraty, foram, além de amigas, eleitoras fiéis do político. Se a memória não me falha, lembro-me de seus irmãos: Aldo, único vivo, músico, compositor e cantor, cozinheiro de prestígio, dono de um restaurante na Estrada Paraty-Cunha; e falecidos são Irma, Célia e Vicente. Esses últimos três foram meus amigos. José Kleber tinha muitos sobrinhos, quase todos meus amigos de juventude. Um deles, o farmacêutico e bioquímico Saulo Zambrotti, filho dos saudosos Irma e Zambrotti, é um amigo querido, com o qual convivi por anos em Paraty, no Rio e em Niterói. Há décadas, tramita no Humor do Folclore Paratyense uma história sobre o avô materno de José Kleber, Ozéas Martins de Almeida, a quem o poeta dedica o seu primeiro livro. Desde jovem ouço essa história engraçadíssima. Ouvi dos antigos que o senhor Ozéas garantia que tinha uma visão tão perfeita que era capaz de visualizar, com nitidez, ele no mercado de peixe ou no cais, duas pitangueiras na Ilha da Bexiga, que fica em frente à cidade, ambas as árvores carregadinhas: uma com as frutinhas maduras, a outra com as frutinhas de vez. Aportei em Paraty, pela primeira vez, com um ano de idade, em 1951. Durante a infância, nunca deixei de ir à cidade por mais de um ano. Depois, já na juventude, no período de 1963 a 1973, visitava muito Paraty, onde morava parte do ano, pois passava férias escolares inteiras na então bucólica e paradisíaca cidade. Nela chegava por mar ou por Cunha, vivendo partes do seu verão ameno e do gostoso inverno. Namorei, nadei, pesquei, me diverti, convivi, muito cresci em Paraty. Passei, então, a conhecer mais da vida do genial José Kleber, a assistir à sua rotina boêmia, o seu cotidiano meio imprevisível e acidentado, tendo o privilégio de conviver com ele em vários períodos. Os mais velhos de Paraty, dado o meu interesse em conhecer o artista, me falaram sobre o vulcão criativo e dramático chamado José Kleber que conheciam desde criança. Soube, por exemplo, que ele, ainda rapaz no final da década de 1940, já se apresentava em tardes domingueiras de uma passageira Associação Recreativa e Cultural Paratyense, uma cisão do tradicional Paratiense Atlético Clube PAC, dizendo poesia e prosa, cantando com o seu violão, criações suas e alheias. Soube, ainda, que ele conseguiu acabar com o cisma, unindo o PAC e vindo a presidi-lo. Tudo isto antes de 1950. Juventude José Kleber estudou em Santo Antônio de Pádua, norte do RJ. Parece-me que fez o Ginásio e o Curso Científico (ou Clássico?) na terra de Altamiro Carrilho. Seus parentes e paduanos que vivem em Paraty me revelaram que José Kleber se apresentava em saraus, circos, shows e eventos artísticos naquela cidade, cantando, representando, tocando violão e dizendo poemas. Mas, sempre retornando à sua terra. Com segurança, posso informar da sua amizade com um grande artista de Pádua que foi, como Kleber, músico, cantor e compositor, o grande acordeonista Anchieta, já falecido. Conheci-o em Niterói em casas noturnas e, depois, o reencontrei em Paraty, na casa dos meus amigos, o comerciante João Ramiro e a professora Geísa Panaro Ramiro, esta paduana, que meu pai trouxe para lecionar no município, como tantas, de diferentes regiões fluminenses e até de outros Estados, e que se tornaram paratyenses. Isto quando Câmara Torres era Técnico de Educação e Chefe da 1ª Região Escolar, com jurisdição em Angra, Paraty, Mangaratiba e Rio Claro, de 1942 a 1953. Mas, antes de se Bacharelar em Ciências Sociais e Jurídicas, em advogado, na Faculdade Nacional de Direito, no Rio, José Kleber foi redator de O Paratiense, editado no Rio por Astrogildo Costa e Benedito Miranda do Nascimento. Vejo o seu nome em um exemplar, na primeira edição de 1952, que possuo no meu imenso acervo sobre Paraty, pois tenho, sob minha guarda e zelo, todos os números de todos os jornais editados em Paraty, desde o primeiro, ainda na década de 1880 até os dias de hoje. No Rio, suponho que Kleber residindo no bairro da Tijuca, na época belo, calmo e arborizado, de clima fresco, além de ler muita poesia de primeira grandeza, de escritores nacionais e estrangeiros, talvez tenha conhecido ou estado pessoalmente, com monstros da Literatura Brasileira à época. Neste período carioca, a concluir do que dele próprio ouvi comentar e recitar, creio que ele esteve muito perto, talvez até tenha dialogado com Cecília Meirelles, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, entre outros vultos da melhor Poesia do Brasil. Na Poesia, outro nome que Kleber venerava e declamava com muito vigor e arte era o brasileiro Oswald de Andrade e o português Fernando Pessoa. Os dramaturgos e poetas William Shakespeare e Samuel Bekket eram, também, gênios, referências que muito admirava, citava e recitava. José Kleber recebeu, se não influência deles, ao menos sugestões e provocações estéticas, temas, ideias e técnicas que introduziu no seu trabalho. Na Música, apreciava eruditos e populares, indiferentemente, em especial Mozart, que muito ouvia. A Seresta Brasileira, a Cultura Popular e o Folclore Paratyenses eram outras fontes nas quais bebia produtivamente. Conviveu, nesse tempo carioca, com poetas, prosadores, intelectuais, entre eles a brilhante e competentíssima professora Glorinha Beuttenmüller, fonoaudióloga, amiga de Kleber, que, certamente, tenha sido sua professora. Kleber dedica a segunda parte do seu Praia do Sono, entre outros, à Glorinha, ela que clinicou, educou e formou centenas de artistas, atores, cantores e locutores do País, durante décadas em seu consultório. Kleber empostava a voz, fazia com ela o que queria, como os melhores atores. Somente na Rede Globo, Glorinha atuou por dezenove anos ininterruptamente. A professora Glorinha Beuttenmüller foi minha professora, participou da minha formação, antes de eu estrear como ator amador, e, depois, profissional, de Teatro, profissão na qual não quis prosseguir após os vinte anos. Antes dos 30 anos, e até hoje, o maior artista paratyense. Em 1960, por ocasião dos Trezentos Anos de Emancipação Política de Paraty, da Revolta Popular, sob o comando do Capitão-Mór Domingos Gonçalves de Abreu, José Kleber, a professora Benedita Calixto (Dona Pequenina) e o Sr. Nestor Miranda, planejaram e organizaram um grandioso desfile cívico-histórico, para celebrar a efeméride. Reuniram ginasianos que representaram portugueses, mestiços, escravos, índios, pajens, cavalheiros e damas nobres, recriaram e contaram o episódio, percorrendo a cidade. O desfile culminava com a chegada do cortejo a um tablado na quadra de basquete ao lado da Matriz, onde, então, os diversos grupos se postaram. Cada grupo, então, se exibia, ao som da locução dramática, por alto-falantes (certamente do Seu Vidal) de um determinado trecho, correspondente àquele grupo, da Narrativa dos Alevantados, um Auto (drama-poesia) escrito por José Kleber, que também encarnou o principal personagem do desfile, o líder Domingos Gonçalves de Abreu. O texto descreve a saga dos revoltosos de Paraty que proclamaram a Emancipação Política em relação à Angra dos Reis, levantando um pelourinho, símbolo da autonomia da Vila. O Auto é uma crônica histórica e um grito de Liberdade e Paz, desejoso de Progresso para a cidade, de Felicidade para o seu Povo. Autoridades municipais, estaduais e federais compareceram à celebração. Tenho várias fotos da Celebração. Presidiu a Comissão Oficial do Tricentenário o Governador Roberto Silveira, junto com o Prefeito Antônio Núbile França, o deputado Câmara Torres, o Presidente da Câmara Municipal, Vereador Irênio Marques Filho, o Príncipe Dom João de Orleans e Bragança e o Doutor Mário Moura Brasil do Amaral. O deputado Câmara Torres, além de representar o Governador no evento, obteve uma verba de Cr$ 20 mil para as festividades, e conseguiu dos Correios a emissão de um Selo Comemorativo do Tricentenário, criado pelo seu amigo, o heraldista, historiador e poeta, Alberto Lima. O Valhacouto A mais famosa e célebre casa noturna, bar, boate e restaurante, que Paraty teve até hoje, foi o memorável Valhacouto, propriedade de José Kleber, por ele administrada, térreo de um sobrado de sua propriedade, localizado na Rua Samuel Costa, entre as Ruas Dona Geralda e Marechal Santos Dias, do lado direito de quem vai para a Rua Dr. Pereira (antiga Rua da Praia). Ela foi aberta no início de 1963. O nome Valhacouto significa refúgio, abrigo, lugar seguro, de bandidos, malfeitores, piratas, marginais. Na casa noturna, belamente decorada ao estilo paratyense, com mesas, bancos, cadeiras e bar coloniais, instrumentos musicais antigos suspensos, pendidos nas paredes de pedra, quadros, esculturas, à luz de archotes e velas, José Kleber se apresentava cantando, recitando, tocando violão. Ao fundo, um lindo jardim tropical, com luzes indiretas. Outros artistas também se apresentavam. No Valhacouto era possível encontrar artistas e intelectuais notáveis e famosos de toda a parte do Brasil e do exterior que visitavam Paraty: cantores, atores, compositores, artistas plásticos, cineastas e gente de teatro, diplomatas, príncipes, duques, grandes empresários, milionários, além de autoridades públicas que visitavam, oficialmente ou não, Paraty. E, também, pescadores, lavradores, comerciantes, alambiqueiros, servidores públicos, professores, estudantes, gente comum da cidade, boêmios, aposentados e, incrivelmente, desocupados, até indigentes. No Valhacouto vi Cacá Diegues e Nara Leão em lua-de-mel; as atrizes Leila Diniz e Ana Maria Magalhães; o compositor Nelson Cavaquinho cantando e tocando o seu violão, com quem bebi na praia até o amanhecer; o cineasta Nelson Pereira dos Santos, meu amigo até hoje; o diretor e ator de teatro Ziembiński, ele que não bebia e passou a dividir Cachaça comigo nos dias que filmou sob a direção de Walter Lima Júnior, outro que se fez meu amigo, Brasil Ano 2000. O Valhacouto era um território livre, democrático, aberto a qualquer um que procurava conhecer mais a Cultura e a Gente de Paraty. Boa música, bons papos, Humor inteligente, onde se bebia e comia muito bem, pratos da terra, comida brasileira e de outros países. O Valhacouto deixou de funcionar por volta de 1970. A 28 de fevereiro de 1967, novamente foi celebrado o Tricentenário de Paraty, desta vez, a efeméride como aniversário da Carta Régia de Dom Afonso VI, Rei de Portugal, que reconheceu, oficialmente, a Emancipação Política de Paraty. Um amplo programa de comemorações foi preparado por uma Comissão, tendo à frente o Prefeito Aluísio de Castro, o Deputado Câmara Torres, o Vereador Paulo Carijó, que presidia a Câmara, o advogado Doutor José Gerardo Barreto Borges eis alguns dos quais me recordo. O deputado Câmara Torres obteve os meios e recursos públicos de patrocínio e apoio aos eventos do programa. Na oportunidade, o mesmo parlamentar com o entusiasmo e determinação da professora Geísa Panaro Ramiro viabilizaram, juntos, a criação do brasão e a bandeira de Paraty, criações de Alberto Lima, a quem Câmara Torres orientou e forneceu ao artista as fontes e as informações básicas para o seu trabalho. Também, junto a Alberto Lima, Câmara Torres trabalhou para que fossem criadas as bandeiras e os brasões de Angra dos Reis, Rio Claro, Mangaratiba, Piraí e Caicó, esta no RN, sua terra natal. Um dos mais concorridos eventos do Tricentenário foi o lançamento do disco compacto duplo Serenata em Paraty José Kleber (LCD 1181, RCA Eletrônica Brasileira S/A), com quatro músicas de José Kleber interpretadas por ele. A capa trazia uma belíssima pintura de Djanira. No lado A: Chiba do Valhacouto e Tudo isto é Paraty; no lado B: Agora é vida e Balada de Paraty. Presenteei o Prefeito Casé Miranda com uma cópia em CD das gravações. Essas belíssimas canções eram, nas décadas de 1960 e 1970, cantadas pelos paratyenses, por todo o povo, em qualquer lugar e a qualquer hora, nas festas, nos Carnavais, nas ruas, nos bares, na praia, nos eventos, nos passeios, e, fora de Paraty, para identificar a gente de Paraty. Tudo isto é Paraty é um segundo Hino do Município, mais cantado que o oficial, Exaltação a Paraty, de autoria do Maestro Potinho (música) e de Aldmar Gomes Duarte Coelho (letra) O poeta de Paraty José Kleber foi um artista iluminado e luminoso, um astro de muita luz, uma estrela de primeira grandeza da nossa Cultura, Paratyense, Fluminense, Brasileira. Tudo que fez na Literatura, na Música, no Teatro, no Cinema, nas Artes Plásticas, realizou com técnica, grande doação e paixão, com inexcedível talento e brilho, com genialidade. Toda a sua obra é construída com real dramaticidade, isto é, feita de sentimento e verdade. Sentimento poético, grande arte e verdade humana. Por isto sempre original, surpreendente, vanguarda, transgressor, comprometido com o seu tempo. Foi um cantor da natureza e da condição humanas, do sonho e dos vôos do Homem. Existencialista, romântico, no sentido filosófico mais alto e pleno do termo, a sua Poesia era essencialmente lírica, musical, mesmo quando caminhava por temas ácidos, aparentemente sem alma, ou quando o verso era político ou falava de tempos e artefatos que alienam e desagregam os homens. Poemas, canções, prosa, falas, interpretações, crítica, quadros em toda a sua obra múltipla pulsava vida, ele falava de existência, de amor, de desejo, de generosidade e prazer. E, quase sempre, do seu lar, da sua casa universal: Paraty. Suas criações tinham raro vigor dramático e eram autênticas catarses, que arrebatavam as sensibilidades e as inteligências, que emocionavam a todos. Muitas delas eram eivadas de certo atavismo que, ao contrário do que se possa imaginar, o engrandecia e o dignificava ainda mais como homem e como artista. E quase tudo que criou tinha marcas telúricas que o universaliza, tinha os elementos e o éter da sua terra, os perfumes e os sabores, os sons e as cores da sua Paraty, de seu mar e de suas matas, rios, cachoeiras e montanhas, das suas ruas e caminhos. Amou e cantou Paraty como nenhum outro artista. Nenhum artista paratyense amou tanto a sua terra como José Kleber. E poucos paratyenses, nativos ou adotivos, o fizeram com tanta doação e ardor como ele. E nenhum outro a engrandeceu e a sublimou com tanto amor e elevada arte. Poeta maior e cantor de bela voz, ninguém, como ele, disse Paraty e cantou Paraty com tanta sabedoria, sentimento, dignidade, verdade e beleza. Ele é, definitiva e eternamente, o Poeta de Paraty. Escreveu versos e melodias que cantaram a beleza da cidade e a alma do povo, o seu cotidiano, os seus sonhos e dores. As composições musicais de José Kleber foram transformadas em hinos, em ícones, símbolos de Paraty, patrimônio cultural, como são o Bairro Histórico, a Cachaça, a farinha, o peixe, o camarão, o artesanato, as festas, a culinária, etc. A propósito, já era hora, da Câmara Municipal de Paraty, aprovar e promulgar uma Lei declarando a Obra Poética e Musical de José Kleber Martins Cruz como Patrimônio Cultural Imaterial de Paraty. Assim entendo, não apenas por eu ser paratyense e profissional especializado e trabalhando em temas da Cultura há mais de cinquenta anos, mas, principalmente, por ter introduzido no Brasil e inserido na Constituição Federal e na Legislação Brasileira, como Consultor Legislativo do Senado Federal e do Congresso Nacional, e, ainda, como único Consultor dessas duas Assembleias e, principalmente, da Constituinte de 1987-8 para os Assuntos da Cultura, o conceito de Bem e Patrimônio Cultural Imaterial. Esse conceito, essa categoria, até 1988 era inexistente, desconhecido entre nós. Também criei e desenvolvi na Assembleia Nacional Constituinte, pela primeira vez no País, a Tese dos Direitos Culturais, onde incluí Paraty na minha argumentação técnico-jurídica. Os Direitos Culturais passaram a fazer parte da nossa Carta Magna. Além de criador ousado, José Kleber foi um intérprete insuperável. Principalmente de suas obras, poemas e canções. Durante as quatro décadas que escreveu, declamou e cantou em Paraty, ele conseguiu ser o fiel e mais nobre intérprete da alma alegre, sentimental e boêmia do paratyense, do humor do paratyense, que sempre foi um criador de histórias, apelidos e anedotas, folião no Carnaval, nos bailes e nas festas, gente simples, religiosa e romântica. Eu, menino e jovem, eu o vi nos bares da cidade, cantando e dizendo Poesia. Eu tinha dez anos e me impressionou o tribuno José Kleber, a belíssima oração que fez, em nome do Ministério Público, na Câmara Municipal, em louvor a meu pai, Câmara Torres, quando este comemorava aniversário e recebia o título de Cidadão de Parati, o primeiro a ser conferido pela Câmara Municipal, na História do Município. Kleber era, então, Promotor Substituto da Comarca, cargo para o qual foi, oficial e institucionalmente, indicado por Câmara Torres, então deputado estadual, representante de Paraty. Tenho a comunicação do Governador Roberto Silveira a meu pai, dando conta da nomeação. Na oportunidade, alguns me falaram dos júris dos quais participava, como representante da Lei e dos interesses da sociedade. Eram verdadeiros espetáculos de inteligência, cultura e oratória. Amigo e mestre No final da década de 1960, eu, ainda rapaz, criando inspirados versos de um forte romantismo, onírico, muitas vezes platônico, quase metafísico, resultados de paixões e amores juvenis, tive em José Kleber um mestre, uma luz a me guiar e ensinar. Lembro-me das longas tardes que com ele discutia Estética, Artes e principalmente Poesia. Ele criticou, a meu pedido, poemas que produzi, indicando soluções literárias mais adequadas para a função da linguagem poética e dos objetivos literários pretendidos. Assim, riscou e rabiscou meus versos (todos inéditos, para felicidade alheia), sugerindo, aperfeiçoando léxico, ritmos, figuras, desenho sintático, dicção e expressão. Ainda tenho guardados esses exercícios que fizemos juntos, ora no sobrado da Rua Dr. Pereira, ora à tarde, no próprio Valhacouto. José Kleber foi um dos maiores poetas fluminenses e do País, pode ser considerado um grande poeta do seu tempo, da sua geração, contemporânea ou filha do grupo pós-modernista, da geração pós-1945. Sua obra é única, personalíssima, não copia, imita ou tem aparente influencia de outro grande poeta. Rebelde, levou a criação poética ao extremo em sua musicalidade, imagética e energia. Ele foi o exemplo vivo, em pessoa, de que a Poesia é uma arte eminentemente oral. Não conheci ninguém que dissesse um poema como ele. Sua sensibilidade cósmica, sua carismática presença, sua voz teatral de tons altos e lancinantes, disseram, nos teatros, nos auditórios, nas praças, nos bares, nas igrejas e palcos, uma poderosa poesia lírica, arquitetura bem construída, realizada em mensagens de significados e sons que tomavam os espaços, dilaceravam dogmas, construíam sonhos e encantavam a todos, fascinando leitores e ouvintes. Eu e o Charles Abel de Oliveira, o Charlinhos do Abel, tivemos a felicidade de assistir, juntos, emocionados, em 1969, no Teatro Municipal de Niterói, José Kleber interpretar, magistralmente, o belíssimo e eterno poema Lamentações sobre os muros de Paraty, e conquistar o 2º lugar no II Torneio Nacional da Poesia Falada. Foi o poema e a interpretação mais aplaudida, concorrendo com poetas de fama nacional e com atores como Paulo Gracindo, Rubens de Falco, entre outros. José Kleber pouco antes de partir. Os seus livros Praia do Sono, poesia (Livraria São José, RJ, 1957 e Massao Ohno Editor, SP, 1990, edição póstuma), Vertentes do Paraíso, poesia (Massao Ohno Editor, SP, 1983), bem como o Auto Histórico Narrativa dos Alevantados, drama/poesia (mimeo, Paraty, 1960), a antologia Tudo isso é Paraty, letras de músicas (mimeo, Paraty, 1966) e o fantástico, catártico poema citado Lamentações sobre os muros de Paraty (II Torneio Nacional de Poesia Falada, Governo do Estado do RJ, 1969, Niterói, RJ) toda a obra do gênio paratyense deveria ser leitura regular e tema de estudo obrigatório nas escolas do município, em todos os graus de ensino. O livro de estréia, Praia do Sono, já revela um poeta adulto, um artista culto da palavra, consciente e responsável pelo seu ofício, pronto para a carreira que o levaria à galeria dos nossos maiores poetas. Vertentes do Paraíso é um livro da maturidade, ousado, prenhe de olhares e imagens fortes, originalíssimas, reais e surrealistas. Neste seu último livro, a lírica vigorosa e contemporânea faz reflexões e canta odes filosóficas, existenciais, antropológicas, políticas e estéticas. Neste último aspecto, sobre o lugar e a função do Poeta no mundo. O seu disco Serenata em Paraty (1967) e os nove filmes em que atuou deveriam estar disponíveis nos acervos das instituições culturais do município. Com a família e com amigos, em arquivos particulares deve haver textos, poemas, fotos, imagens, gravações sonoras e vídeos inéditos de José Kleber, que ainda não conhecemos. Sua aguda e contagiante sensibilidade, sua bela e carismática presença física disseram, nos espaços que pisou, uma poderosa poesia lírica, hedonista, existencial, de raro vigor dramático, transgressora, catártica e telúrica, com os sons, o cheiro, o gosto e as cores de Paraty. Cósmica, sua obra não é provinciana, regional, não está represada entre a montanha e o mar da sua terra. Ao contrário, universal e humanista, vê e tange vários territórios, fundamentalmente o Homem corpo e alma, sonho e saga, arte e destino. Sua poesia, sua música, seus filmes, fizeram-no reconhecido e admirado internacionalmente. Estava em Brasília, ainda morava em Brasília, quando soube do assassinato do meu amigo José Kleber. Meu pai me telefonou à noite para me dar a terrível notícia. Tomei três pingas de um garrafão de Corisco com que o meu outro amigo Aníbal Gama havia me presenteado. Depois de um banho frio, chorei muito e tentei dormir em seguida. No último dia 7 de fevereiro, completaram-se vinte e oito anos da partida de José Kleber, covarde e cruelmente assassinado por um empregado que trabalhou para ele como motorista em sua eleição. Mas ele continua conosco, com a sua poesia vital, indispensável, a sua música necessária que alimenta a nossa essência, revigora o sentimento de cada um e de todos, paratyenses, individual e coletivamente. A sua obra seminal, urgente, contemporânea e eterna, sustenta a nossa esperança e a nossa alegria, nos torna, enfim, mais vivos, mais lúcidos e mais afetivos, mais amantes desta terra, mais responsáveis por ela. José Kleber nos faz, a cada dia, mais paratyenses. ________________________________________ José Kleber: a arte rebelada. Obras publicadas: Livros: Praia do Sono poesia duas edições: 1957 (Livraria São José, RJ) e 1990, edição póstuma (Massao Ono Editor, SP); Vertentes do Paraíso poesia (Massao Ohno, M. Lydia Pires e Albuquerque/Editores Gerhard Bannwart, SP, 1983); Lamentações sobre os muros de Paraty Poema classificado em 2º lugar no II Concurso Nacional de Poesia Falada Intérprete: José Kleber in Antologia editada pelo Departamento de Difusão Cultural, Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Niterói, 1969. Publicações mimeografadas e encadernadas: Narrativa dos Alevantados Auto/Drama/Poesia Sobre a Revolta Popular que promoveu a Emancipação Política de Paraty, sob a liderança de Domingos Gonçalves de Abreu (Paraty, 1960) Tudo isso é Paraty (Letras de músicas de José Kleber, SP, 1966); Teatro (ator): Domingos Gonçalves de Abreu No Auto Narrativa dos Alevantados Desfile cívico-histórico a 7 de setembro de 1960. Discografia (como cantor, violonista e compositor): Serenata em Paraty compacto duplo, 1967 RCA (LCD-1182), com as seguintes músicas, todas, criações suas, de sua autoria (músicas e letras): Tudo isto é Paraty, Agora é vida, Balada de Paraty e Chiba do Valhacouto. Filmografia Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty, de Nelson Penteado (roteiro e narração de José Kleber) curta-metragem de 1967 c/ participação protagonista da pintora Djanira. Azillo muito louco (ator, 1969) Tudo isso é Paraty (ator, 1970) Quem é Beta (ator, 1972) todos de Nelson Pereira dos Santos. __________________________________________________ Mãos vazias (ator, 1971), O sereno desespero (ator; com dramatizações de poemas de José Kleber, 1973) O princípio do prazer (ator, 1978) Briga de galos (narrador e ator, 1978). todos de Luiz Carlos Lacerda, o Bigode. ________________________________________ A bela Palomeira (ator, 1987) de Ruy Guerra.