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Diuner Mello

Diuner Mello é Professor, Historiador e Escritor. Sócio fundador do Instituto Histórico e Artístico de Paraty, ele é um Cidadão de Ouro, título que recebeu da rede DLIS pela pesquisa sobre o Caminho do Ouro-Estrada Real.


O Senhor da História

DIUNER MELLO – Eu nasci em Paraty, estudei aqui, depois estudei um tempo no Rio de Janeiro, fui seminarista. Lá, ninguém conhecia, sequer sabia onde era Paraty. Jamais tinham ouvido falar, nem achavam que Paraty fosse nome de cidade. Então, com 20 anos, quando voltei, resolvi ver, enxergar mesmo que cidade era essa, que não constava no mapa e que ninguém conhecia. Foi quando comecei a me dedicar a um estudo de História, primeiro conversando com as pessoas mais velhas: Manoel Torres, Nestor Miranda, assimilando o que eles tinham pra contar. Depois comecei a consulta de livros, fui amealhando uma série de informações sobre a cidade. Mas minha mãe dizia que eu não iria sobreviver daquilo, pesquisar a história de Paraty não me daria dinheiro. Então fui trabalhar. Fui funcionário público. Trabalhei na Prefeitura, na Secretaria de Turismo, fui chefe de gabinete. Trabalhei no hospital durante quinze anos como administrador. Mas meu tempo vago era todinho para estudar a história de Paraty. E com esse estudo, com a documentação inclusive de viagens que me ajudaram a pesquisar, saber mais, acabei virando um expert em história. Eu sou isso hoje. Uma pessoa que conhece a fundo a história de Paraty. PARATY.COM.BR – A história oral, o ouvir o outro… Isso foi importante no seu processo de historiador amador, na satisfação de sua curiosidade? DIUNER MELLO – Muito. Existe um fato engraçado: Samuel Costa dizia e também o Zuzu me disse que a antiga Cadeia ficava aqui na Praça, em frente ao cinema. E diziam ainda que existiu um forte, a Fortaleza da Patitiba, onde está hoje a Biblioteca (a antiga Cadeia). Escrevi isso no meu primeiro livro. Depois, consultando documentos, descobri que realmente a Cadeia era aqui na Praça, mas o Forte foi demolido, para só mais tarde ter sido construída a Cadeia. Mas veja, a informação oral se confirma. PARATY.COM.BR – Então o seu método de pesquisa foi sempre a boa conversa… DIUNER MELLO – A boa conversa que você documentalmente pode confirmar ou não. No caso da Cadeia velha se confirmou quando foi encontrado o alicerce. E no caso do Forte com o levantamento da documentação que mandava demolir a construção para que fosse construída ali a Cadeia, chamada na época de Casa de Detenção. PARATY.COM.BR –Estamos aqui no centro do que eu chamo de “broche” de Paraty, na Praça da Matriz, em meio a esse casario bonito, bem conservado. Há 100 anos esse entorno era dessa forma ou muita coisa mudou por aqui? DIUNER MELLO – Isso era mais ou menos como é hoje, sim. Esse quadrado da Praça foi definido pela Câmara por volta de 1870, quando foram plantadas as primeiras palmeiras (ele aponta uma delas, definindo-a como a última que sobrou das antigas palmeiras centenárias da Praça da Matriz). O surgimento da Praça foi simplesmente uma demarcação, aqui era um campo, um gramado, sem nenhum atrativo. Somente em 1922 é que Samuel Costa, então prefeito, resolve transformar a Praça da Matriz em Jardim Público. Então, ele “copia” o Passeio Público do Rio de Janeiro, do Glaziou ( Auguste François Marie Glaziou, 1828-1906, paisagista francês), inclusive com a plantação de algumas das mesmas árvores que existiam no projeto carioca. Criado o jardim, o espaço da Praça passou a centralizar a cidade, ganhando de início a construção da Matriz junto ao rio, depois da antiga Câmara e da Cadeia. Essa Praça onde estamos agora é o núcleo mais antigo a partir do qual Paraty se expandiu, embora, no passado, a área não fosse toda essa que é hoje. No lugar exato desse banco onde estamos sentados, por exemplo, havia um quarteirão de casas, com frente para a Praça e fundos para a rua Dona Geralda. E eu morava exatamente aqui, onde nós estamos sentados! Mas essas casas um dia foram demolidas, por decisão da Câmara. Expandir para o lado do rio era impossível, a saída foi expandir no sentido da Igreja de Santa Rita. Naquele tempo a Rua do Fogo vinha até aqui, era a primeira rua que ligava a antiga Matriz à Santa Rita. Depois foi criada a Rua Dona Geralda. Em 1726, quando Paraty foi urbanizada, foi feito outro traçado, e a Rua do Fogo ficou reduzida àquele quarteirãozinho que ela é hoje. PARATY.COM.BR – Dona Geralda, Samuel Costa…Quem foram essas figuras ilustres que emprestaram seu nome às ruas mais importantes de Paraty?DIUNER MELLO – Samuel Costa foi mesmo um paratiense ilustre. Formou-se advogado e se dedicou à política. Foi deputado provincial, presidente da Câmara e o primeiro prefeito de Paraty, por volta de 1916 até 1922. Eu o considero uma das pessoas mais importantes da história da cidade. Numa época em que Paraty estava em total decadência, ele foi um visionário. Conseguiu construir o Jardim Público, uma ponte de madeira sobre o rio Perequê-Açu e ainda fez a iluminação elétrica da cidade, que chegava até aqui vindo lá de cima do Penha (bairro na estrada Paraty-Cunha), de onde hoje está o local ainda conhecido por Usina. Ali, em 1922, funcionava a Central de Luz que distribuía a iluminação para Paraty. Esse lugar onde existiu a usina foi uma fábrica de tecidos. Na época, Samuel Costa aproveitou o local para fazer os geradores de energia elétrica. E de lá vinha a posteação até a cidade. Quando criança, eu cheguei a conhecer essa iluminação, os postes eram de ferro, colocados no meio da rua. PARATY.COM.BR – Dona Geralda… DIUNER MELLO – Ah, ela foi outra figura ímpar. Geralda Maria da Silva. Era filha natural de um armador de navio, um homem rico e poderoso. Filha única. Quando o pai morreu, herdou uma fortuna incalculável e no seu testamento deixou duas fazendas e dezessete casas na cidade para a Santa Casa e para os escravos dela – escravos que ela libertou. Os relatos da época, inclusive do Imperador Pedro II, contam que dona Geralda era uma pessoa caridosa, atendia a todos os pobres. E chegou a colaborar com vinte e cinco mil contos de réis para terminar as obras da Matriz, valor hoje equivalente a cerca de vinte e cinco milhões de reais! Uma quantia e tanto, não é? Como ela não teve filhos, fez essa doação generosa. PARATY.COM.BR – E onde morava Dona Geralda? Aqui no Centro Histórico? DIUNER MELLO _ Sim, aqui na Praça, bem diante da Matriz, no número 15. Ela era tão beata que resolveu morar em frente à igreja… Olhe, era aqui, exatamente nesse sobrado de portas azuis e amarelas. Interessante porque é um sobrado simples, sem ornamentos, sem sacada, em termos de estilo muito mais do século XVIII do que do XIX. PARATY.COM.BR – Você nasceu aqui no Centro Histórico? DIUNER MELLO – Sim, dei muita sorte. Nasci na esquina da Rua da Cadeia com a Rua do Comércio. Situando melhor, indo no sentido oeste, tem a quadra de basquete, na sequência um sobrado e depois há uma casa de esquina. Foi naquela casa, Solar dos Mello, uma casa genial, construção do século dezoito, com frente para três ruas. PARATY.COM.BR – Este casario de hoje sofreu muitas intervenções na arquitetura? DIUNER MELLO – Sim. A Paraty de hoje não é a mesma de cem anos atrás. Não é a Paraty do século dezoito, desse tempo muito pouco restou. Existiam ruas que não existem mais. Remanejamento, ou seja, aquela história da cidade invisível… Nós temos uma cidade invisível embaixo dessa. Tal como em Roma, se você escavar vai encontrar outros alicerces, outras estruturas. A gente tem muito mais registros do século dezenove. Mas veja, esse é um exemplo do dezoito (ele afirma, apontando uma das fachadas na Praça da Matriz). Temos outros bons exemplos, como a Casa da Cultura, com as varandas de madeira, a Casa Paroquial… Mas quando se fica rico, a tendência é querer modernizar, não é? Então, no dezenove, quando a cidade volta a ficar rica, os proprietários dos casarões resolvem adotar a moda da Corte. É quando chegam os avarandados todos de ferro trabalhado, as novidades, novas cores, os abacaxis… E vêm também os desenhos maçônicos, que surgiram preferencialmente na passagem do século dezoito para o dezenove. A maçonaria em Paraty é da fase rica, quando a cidade resolve se parecer com o Rio de Janeiro. PARATY.COM.BR – Diuner, olhe…Esse é um autêntico desenho maçônico? (pergunta feita diante de sobrados nas imediações da rua Dona Geralda com a rua da Capela, quando nos encaminhávamos para a Capelinha)DIUNER MELLO – Sim, este é autêntico. Aquele também (aponta). Mas são apenas seis ou sete na cidade. E apenas em sobrados. Em casas baixas não há símbolos maçônicos. Por esses desenhos um maçom consegue dizer o grau do morador ou de quem construiu a casa. Apesar de não ser maçom, sei ler alguns desses símbolos. Os dessa fachada (outra vez ele aponta) indicam ser de um cavaleiro templário, ordem das mais importantes… A lua em crescente é símbolo dos árabes, assim como a espada curva, a cimitarra. Veja essa faixa aqui (apontando outra vez), o fundo é cor-de-rosa, infelizmente já desbotado, mas é indicativo da maçonaria simbólica, a filosófica, aquela voltada ao estudo. Há um sobrado na rua da Praia que conserva a cor rosa original, na verdade é um vermelho, quase bordô